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24.10.16

Semana de Aulas Abertas

De 26 a 31 de Outubro, você poderá experimentar aulas no Tatamito.

Oferecemos práticas que visam ampliar a consciência corporal, para adultos e crianças.

Trabalhamos com turmas pequenas ou personal.

Para participar, agende sua aula, em algum dos horários abaixo

22.4.16

O momento presente

"O momento presente é a era do materialismo. Entretanto, precisamos nos esforçar para fazer a flor do espírito desabrochar e produzir frutos espirituais."
(Ueshiba, "Aikido é o Estudo do Espírito" in "Ensinamentos Secretos do Aikido"


28.1.16

Novas turmas de Aikido



Aikido Corpo & Ki no meio da manhã ou na hora do almoço é ideal para quem tem uma agenda flexível.

No Tatamito trabalhamos com turmas pequenas de no máximo 4 alunos e com foco na consciência corporal.

Além disso você pode optar por comprar pacotes de aulas (que permitem reposições) ou mensalidades (opção mais econômica).

Informe-se por email

Um caminho para a harmonia


Lojong: 8 versos que transformam a mente*

1. Com a determinação de alcançar
O bem supremo em benefício de todos os seres sencientes,
Mais preciosos do que uma jóia mágica que realiza desejos,
Vou aprender a prezá-los e estimá-los no mais alto grau.

2. Sempre que estiver na companhia de outras pessoas, vou aprender
A pensar em minha pessoa como a mais insignificante dentre elas,
E, com todo respeito, considerá-las supremas,
Do fundo do meu coração.

3. Em todos os meus atos, vou aprender a examinar a minha mente
E, sempre que surgir uma emoção negativa,
Pondo em risco a mim mesmo e aos outros,
Vou, com firmeza, enfrentá-la e evitá-la.

4. Vou prezar os seres que têm natureza perversa
E aqueles sobre os quais pesam fortes negatividades e sofrimentos,
Como se eu tivesse encontrado um tesouro precioso,
Muito difícil de achar.

5. Quando os outros, por inveja, maltratarem a minha pessoa,
Ou a insultarem e caluniarem,
Vou aprender a aceitar a derrota,
E a eles oferecer a vitória.

6. Quando alguém a quem ajudei com grande esperança
Magoar ou ferir a minha pessoa, mesmo sem motivo,
Vou aprender a ver essa outra pessoa
Como um excelente guia espiritual.

7. Em suma, vou aprender a oferecer a todos, sem exceção,
Toda a ajuda e felicidade, por meios diretos e indiretos,
E a tomar sobre mim, em sigilo,
Todos os males e sofrimentos daqueles que foram minhas mães.

8. Vou aprender a manter estas práticas
Isentas das máculas das oito preocupações mundanas,
E, ao compreender todos os fenômenos como ilusórios,
Serei libertado da escravidão do apego.




*autor: Geshe Langri Tangpa (1054-1123)

10.1.16

O outro lado de Tesla

Provavelmente você já ouviu falar de Tesla (1856-1943), o inventor sérvio radicado nos EUA que trabalhou com Thomas Edison  e ficou conhecido por suas  experiências com alta voltagem. Tesla desenvolveu o sistema de corrente alternada e registrou mais de 700 patentes mundiais.

imagem proveniente do site do Instituto Nikola Tesla

Mas e o outro lado de Tesla, você conhece?

Eu não conhecia até alguns dias atrás. Porém, no dia 6 de janeiro, um amigo me indicou um video no YouTube sobre as relações entre a percepção interior e exterior do ser humano. Uma coisa foi levando a outra e encontrei um outro video que me pareceu interessante e deixei para assistir no dia seguinte.

Coincidência ou Sincronicidade?

Assim, no dia 7 de janeiro (que descobri depois ser a data da morte de Tesla) assisti a vários vídeos contando sobre as experiências mais radicais de Tesla e seus "discípulos", como Otis Carr e Ralph Ring, que vêm driblando o sistema e executando experiências inovadoras em relação a energia limpa, gratuita e, portanto, sustentável.


Nikola Tesla

Acho que como eu, muitas pessoas têm seus momentos de desânimo e descrédito em relação ao futuro da humanidade. Eu procuro minimizá-los porque acho que são contraproducentes. O Aikido nos ensina que é preciso manter-nos em movimento e não nos paralisarmos, seja em uma posição, um movimento, uma ideia obsessiva ou depressiva... Dessa forma, sinto que é saudável e produtivo nos ligarmos nas boas soluções e projetos que vem pipocando no mundo, como é o caso  do Bora Plantar, ou do  Cidades Sem Fome, por exemplo.

E nesse sentido que gostaria de comentar sobre as ideias de Tesla, como projeto de opção aos combustíveis fósseis, para dizer o mínimo diante de suas inúmeras e complexas propostas que trazem  respostas que certamente serão aplicadas no mundo pós-capitalista que viveremos no futuro (sim, sou muito otimista em geral!).

Tesla, entre tantas descobertas, percebeu que os circuitos fechados (por exemplo, uma pilha, um motor com combustível fóssil) esgotam-se energeticamente e requerem reposição de fonte energética. Entretanto, circuitos abertos tem energia inesgotável pois estão abertos ao fluxo de energia cósmica. Interessante fazer um paralelo com a ideia de circuito aberto dos nadis (para a cultura hindu) ou meridianos para a medicina chinesa, os vasos energéticos (não detectáveis por aparelhos da cultura ocidental) que correm dentro do corpo físico e são os canais por onde a energia cósmica (prana, ki ou chi) flui. O aikido e outras artes marciais trabalham a ideia de manter os canais e centros energéticos (chakras) abertos para não haver desgaste de energia durante a prática. É a ideia de corpo-passagem que já mencionei neste blog antes (leia em Ki e o corpo-passagem)

Os chakras são os centros energéticos que podem abri-se ou fechar-se causando estados de saúde ou doenças 
Nessas pesquisas pela internet nos últimos dias descobri que o sobrinho de Tesla, Boris Petrovic resolveu mudar-se para o Brasil e estabelecer aqui o Instituto Tesla. A escolha se deveu as condições energéticas da localização do Brasil, conhecida também como Anomalia Magnética, condição que permite um maior afluxo de energia cósmica no país em relação a outras partes do planeta,  tornando-o portanto o lugar ideal para as experiências de energia livre que se desdobram não apenas em relação aos transportes, às operações de máquinas, mas também em relação à saúde.

As invenções de Tesla levam em consideração essa premissa de circuito aberto e podem gerar energia limpa, inesgotável e gratuita (dai seu "perigo", sua obscuridade em que se encontravam suas ideias). Mas felizmente a internet permite a difusão rápida e global de ideias e convido a todos a visitarem os vários links que deixei aqui espalhados neste post e a fazerem suas próprias conexões. O site do Instituto Tesla inclusive tem links para vários textos do próprio Tesla. Boa pesquisa!

5.1.16

A REVOLUÇÃO MINDFULNESS

por Milca Ribeiro


Porque a prática de Mindfulness está revolucionando o mundo.
Começamos a notar um certo movimento na mídia a respeito de Mindfulness nos últimos tempos, mas o que a final de contas é isto? Por que falar nisso agora? Meditação não é coisa apenas para pessoas zen, yogis e hippies de plantão? Isto não deve servir para pessoas normais ou agitadas. Temos coisas demais a fazer para simplesmente parar e fazer nada, é pura perda de tempo.

Estereótipos como estes bloquearam por muito tempo o uso de técnicas meditativas no ocidente. Felizmente este quadro começa a mudar. Graças ao avanço no campo da neurociência e a dedicação, sem precedentes, de cientistas de ponta como os Phds Jon Kabat-Zinn e Richard Davidson que, desde a década de 70, estudam a fundo os efeitos e benefícios das técnicas meditativas não somente no cérebro humano, mas no seu desenvolvimento fisiológico, emocional e social.

Hoje já são mais de 4000 estudos científicos realizados pelas mais importantes universidades do mundo, como Harvard, Oxford e Berkeley comprovando o que os orientais já dizem e praticam há mais de 2500 anos: meditação traz foco, criatividade, clareza de raciocínio, reduz a ansiedade e melhora a imunidade.



Mindfulness Corporativo : do Vale do Silício para o Mundo
Não é somente no campo da neurociência que a Meditação tem mostrado o seu valor. Empresas visionárias como Google, Facebook, Twitter, Amex, General Miles, Atena, Nike e Ford tem ajudado a disseminação das técnicas meditativas no ocidente oferecendo o programa de Mindfulness a seus colaboradores com resultados, a primeira vista, surpreendentes: uma equipe ancorada no presente, que sabe relaxar e é mais consciente do seu corpo e de suas emoções, é capaz de perceber e aproveitar melhor as oportunidades; é mais produtiva, criativa e colaborativa.

Também, não foi por acaso, que estes programas de Mindfulness começaram a pipocar na última década tanto no mundo acadêmico quanto no empresarial e político. Sim existem programas de Mindfulness até no Parlamento Inglês, no exército e no Congresso americano também. O mundo está a beira do colapso, a crise econômica mundial, os desequilíbrios naturais, as guerras, a crise migratória, são provas mais do que suficientes de que a forma como estamos conduzindo nossas vidas e o mundo não está dando certo. Chegamos ao limite, físico, emocional e social.



A falta de foco e as consequências da atenção parcial contínua
Vivemos a Era da Reação, uma sociedade que valoriza o fazer incondicional e automático. Fazer, fazer e fazer, sem parar. Se paramos ou não operamos no modo multitarefa nos sentimos e somos julgados como ineficientes, pouco produtivos, folgados mesmo. A sensação de culpa, frustração e esgotamento são nossos companheiros quase que inseparáveis ultimamente.

Somos movidos por metas e expectativas baseadas em comportamentos rígidos e obsoletos e pior é que estamos operando desta forma há séculos. Sejamos realistas, alguém está satisfeito com o mundo hoje? Somos literalmente viciados no modo fazer, e no fazer repetindo padrões de comportamentos limitados por necessidades pessoais e não globais. Não paramos para refletir sobre o cenário maior. Qual o verdadeiro impacto das nossas ações, ou melhor, reações à vida? O que realmente importa para nós e para o mundo? Quais são as nossas prioridades? Esta promoção no trabalho é realmente o que queremos, é o que precisamos neste momento, ou é simplesmente o que se espera de nós? Qual o nosso propósito?

Ao nos entregarmos automaticamente ao modo fazer, nos desconectamos da nossa essência, e assim escapamos destes questionamentos que sempre fizeram parte da vida, mas que requerem esforço, coragem, dedicação. Segundo Daniel Goleman, autor de Inteligência Emocional, pensar profundamente exige manter a mente focada. Quanto mais distraídos estamos, mais superficiais são nossas reflexões e a incapacidade de abandonar um foco para tratar de outros pode deixar a mente perdida num ciclo de ansiedade crônica.

A esta altura provavelmente, você pode estar, ao mesmo tempo em que lê este texto, pensando na sua próxima reunião, ou que deixou de mandar um email importante. E é exatamente isso o que acontece com a nossa mente, o tempo inteiro. A mente fica vagando por ai, entre o passado e o futuro, cada vez mais dispersa, a tal ponto que, foi cientificamente comprovado que o nosso nível de foco, de concentração atual é menor do que a de um peixinho dourado.


Mindfulness: a simplicidade integrando de forma harmoniosa a prática ao seu dia-a-dia
Mas como é possível reverter este quadro, sair do automático e agir de forma consciente? É exatamente ai que entra a importância da prática de Mindfulness, promovendo uma forma diferente de ser e estar no mundo, nos ancorando ao momento presente, no que realmente importa, no que faz sentido.

Mindfulness tem sua origem em um ensinamento do Budha chamado Anapansati, mas apesar da sua origem é uma prática secular, completamente desvinculada de qualquer religião ou crença.

A simplicidade de suas técnicas e ensinamentos unidos e copilados de forma extremamente eficaz e precisa pelo americano Jon Kabat-Zinn criador do MBSR - Programa de Redução de Stress Baseado em Técnicas de Mindfulness - traduz o sucesso mundial da prática.

É através da Atenção Plena, com tem sido traduzida a palavra Mindfulness, que tomamos a rédeas de nossas vidas, deixamos de ser escravos de nossas ruminações mentais e passamos agir de forma consciente, dominando nossas emoções e não ao contrário. Conquistamos maior clareza mental e somos capazes de lidar com problemas de forma mais madura com menos sofrimento. Praticamos empatia e compaixão e assim fazemos a verdadeira revolução que o mundo precisa, de dentro para fora, transformando primeiro o Ser para assim sermos capazes de transformarmos a sociedade.




INSCREVA-SE 
PRIMEIRA TURMA DO ANO DE MINDFULNESS do Tatamito com Milca Ribeiro
Começa em 14 de Janeiro e as inscrições ainda estão abertas
Entre em contato




Milca Ribeiro, ministra Programas de Mindfulness em empresas e para o público em geral em São Paulo. Formada em Comunicação Social, sócia/fundadora da primeira agência de publicidade especializada em franquias, MD Comunicação aonde atuou na área de planejamento por 10 anos, por isso compreende muito bem o que é trabalhar sobre pressão e stress, e trouxe esta experiência para o seu Programa de Mindfulness Mindfulyoga.

Atuou como gestora no mercado de bem-estar e fitness por 10 anos. Idealizadora e fundadora do Bhanu Espaço Integral de Bem Estar, um centro dedicado à práticas de auto-conhecimento e redução de stress.

Praticante de yoga e meditação desde 2005, professora especializada em Hatha Yoga pela FMU, com aprofundamento em Meditação e Vedanta pelo Instituto Yoga Terapia em Campinas. Instrutora Mindfulness pela MTI (Mindfulness Trainings International. Em 2014 participou de uma Learning Journey pelos Estados Unidos conhecendo e praticando Mindfulness com quem mais entende do assunto, entre eles, Otto Scharmer no MIT (Massachusetts Institute of Technology) e Jon Kabat-Zinn em Cambridge.

21.12.15

A sabedoria do silêncio


"Pense no que vai dizer antes de abrir a boca. Seja breve e preciso, já que cada vez que deixa sair uma palavra, deixa sair uma parte do seu Chi (energia). Assim, aprenderá a desenvolver a arte de falar sem perder energia.
Nunca faça promessas que não possa cumprir. Não se queixe, nem utilize palavras que projetem imagens negativas, porque se reproduzirá ao seu redor tudo o que tenha fabricado com as suas palavras carregadas de Chi.
Se não tem nada de bom, verdadeiro e útil a dizer, é melhor não dizer nada. Aprenda a ser como um espelho: observe e reflita a energia. O Universo é o melhor exemplo de um espelho que a natureza nos deu, porque aceita, sem condições, os nossos pensamentos, emoções, palavras e ações, e envia-nos o reflexo da nossa própria energia através das diferentes circunstâncias que se apresentam nas nossas vidas.
Se se identifica com o êxito, terá êxito. Se se identifica com o fracasso, terá fracasso. Assim, podemos observar que as circunstâncias que vivemos são simplesmente manifestações externas do conteúdo da nossa conversa interna. Aprenda a ser como o universo, escutando e refletindo a energia sem emoções densas e sem preconceitos.
Porque, sendo como um espelho, com o poder mental tranquilo e em silêncio, sem lhe dar oportunidade de se impor com as suas opiniões pessoais, e evitando reações emocionais excessivas, tem oportunidade de uma comunicação sincera e fluida.
Não se dê demasiada importância, e seja humilde, pois quanto mais se mostra superior, inteligente e prepotente, mais se torna prisioneiro da sua própria imagem e vive num mundo de tensão e ilusões. Seja discreto, preserve a sua vida íntima. Desta forma libertar-se-á da opinião dos outros e terá uma vida tranquila e benevolente invisível, misteriosa, indefinivel, insondável como o TAO.
Não entre em competição com os demais, a terra que nos nutre dá-nos o necessário. Ajude o próximo a perceber as suas próprias virtudes e qualidades, a brilhar. O espírito competitivo faz com que o ego cresça e, inevitavelmente, crie conflitos. Tenha confiança em si mesmo. Preserve a sua paz interior, evitando entrar na provação e nas trapaças dos outros. Não se comprometa facilmente, agindo de maneira precipitada, sem ter consciência profunda da situação.
Tenha um momento de silêncio interno para considerar tudo que se apresenta e só então tome uma decisão. Assim desenvolverá a confiança em si mesmo e a Sabedoria. Se realmente há algo que não sabe, ou para que não tenha resposta, aceite o fato. Não saber é muito incómodo para o ego, porque ele gosta de saber tudo, ter sempre razão e dar a sua opinião muito pessoal. Mas, na realidade, o ego nada sabe, simplesmente faz acreditar que sabe.
Evite julgar ou criticar. O TAO é imparcial nos seus juízos: não critica ninguém, tem uma compaixão infinita e não conhece a dualidade. Cada vez que julga alguém, a única coisa que faz é expressar a sua opinião pessoal, e isso é uma perda de energia, é puro ruído. Julgar é uma maneira de esconder as nossas próprias fraquezas.
O Sábio tolera tudo sem dizer uma palavra. Tudo o que o incomoda nos outros é uma projeção do que não venceu em si mesmo. Deixe que cada um resolva os seus problemas e concentre a sua energia na sua própria vida. Ocupe-se de si mesmo, não se defenda. Quando tenta defender-se, está a dar demasiada importância às palavras dos outros, a dar mais força à agressão deles.
Se aceita não se defender, mostra que as opiniões dos demais não o afetam, que são simplesmente opiniões, e que não necessita de os convencer para ser feliz. O seu silêncio interno torna-o impassível. Faça uso regular do silêncio para educar o seu ego, que tem o mau costume de falar o tempo todo.
Pratique a arte de não falar. Tome algumas horas para se abster de falar. Este é um exercício excelente para conhecer e aprender o universo do TAO ilimitado, em vez de tentar explicar o que é o TAO. Progressivamente desenvolverá a arte de falar sem falar, e a sua verdadeira natureza interna substituirá a sua personalidade artificial, deixando aparecer a luz do seu coração e o poder da sabedoria do silêncio.
Graças a essa força, atrairá para si tudo o que necessita para a sua própria realização e completa libertação. Porém, tem que ter cuidado para que o ego não se infiltre… O Poder permanece quando o ego se mantém tranquilo e em silêncio. Se o ego se impõe e abusa desse Poder, este converter-se-á num veneno, que o envenenará rapidamente.
Fique em silêncio, cultive o seu próprio poder interno. Respeite a vida de tudo o que existe no mundo. Não force, manipule ou controle o próximo. Converta-se no seu próprio Mestre e deixe os demais serem o que têm a capacidade de ser. Por outras palavras, viva seguindo a via sagrada do TAO."
(Texto Taoísta)

20.12.15

A força

Usar ou não a força é uma questão muito presente nas artes marciais. O que é a força? Continuando com as correlações com o tarot como no post anterior, a carta "A Força", segundo a interpretação de Greene e Sharman-Burke, revela como lidamos com nossas forças instintivas, muitas vezes destrutíveis.


A carta em questão retrata Heraclés, o conhecido Hércules da versão romana, grande guerreiro. Aqui, transcrevo trecho do livro já citado:

"O primeiro dos 12 famosos trabalhos que o rei Euristeu solicitou a Heraclés foi a conquista do Leão de Neméia, uma fera enorme, um animal feroz cuja pele era à prova de ferro, bronze ou pedra. Uma vez que o animal havia devorado quase toda a população da região, Heraclés não encontrou ninguém que lhe pudesse indicar o esconderijo do leão. Mas finalmente encontrou a fera, ainda manchada de sangue das vítimas daquele dia. Disparou uma saraivada de flechas contra o animal, que nem chegou a ser atingido de tão duro e resistente que era seu corpo. Em seguida, empunhou a espada, que se entortou; depois a clava, que se partiu na cabeça do leão. Heraclés então colocou uma rede numa das entradas da caverna e se esgueirou pela outra. Acuado, o leão mordeu um de seus dedos, mas ainda assim Heraclés conseguiu dominá-lo pelo pescoço, estrangulando-o até a morte, usando somente a força das mãos. Em seguida, retirou a pele do animal com as unhas da própria fera, afiadas como lâminas, e daquele momento em diante passou a usar a pele do leão como armadura e a cabeça como elmo, tornando-se tão invencível quanto a própria fera o havia sido até então.
No nível psicológico, a luta de Heraclés com o Leão da Neméia configura o eterno problema de contermos a fera que mora dentro de nós, ao mesmo tempo em que tentamos preservar as suas características primitivas, o instinto vital e criativo. O leão é um animal especial e representa um aspecto diferente da psique humana, se comparado aos cavalos fogosos da carta do Carro. O leão, na mitologia, sempre esteve associado à realeza, mesmo quando em sua forma mais destrutiva, e esse rei dos animais é a imagem do princípio infantil, egocêntrico e totalmente selvagem presente desde o início da formação de uma personalidade. Dessa maneira, o Leão de Neméia não pode ser completamente mau porque possui uma pele mágica, à prova de qualquer arma, que lhe garante invencibilidade. Essa invencibilidade está ligada ao sentido de permanência interior que surge a partir do reconhecimento do próprio eu. Sempre que vestimos a pele do leão derrotado por nós, as opiniões dos outros - as poderosas pessoas que intimidam tanto o coração dos tímidos e dos fracos - jamais terão valor, pois estamos armados com a mais poderosa couraça, nossa própria identidade."
Hercules e o leão de nemeia, gravura, Giovanni da Brescia

Como diria o fundador do Aikido, Morihei Ueshiba,  Masagatsu agatsu, a grande vitória é a vitória sobre nós mesmos.

fonte: O Tarot Mitológico (Liz Greene e Juliet Sharman-Burke, Ed. Siciliano)

19.12.15

A harmonia na jornada do deus da Guerra

A ideia de caminho como desenvolvimento humano permeia a cultura oriental através do conceito de do. Mas caminho como jornada evolutiva é também um aspecto do Tarot. A abordagem da simbologia do tarot feita por Liz Greene e Juliet Sharman-Burke me parece especialmente interessante, sobretudo porque passa por um viés psicológico.

Se a abordagem das artes marciais que fazemos no Tatamito (espaço dedicado à transformação pessoal) se justifica sobretudo por uma possibilidade metafórica de compreensão dos conflitos e dilemas humanos, nessa leitura do Tarot, temos alguma aproximação em relação a esse entendimento também.

O termo artes marciais deriva de Marte, deus romano da guerra. O equivalente grego deste deus pode ser considerado Ares. O deus da guerra grego era filho de Hera e foi concebido sem a semente masculina. Ares pode ser considerado o oposto de Atena, símbolo de estratégia e coragem refletida. Ares sempre foi associado a conflitos, força bruta e falta de refinamento.

Ares apaixonou-se por Afrodite, que era casada com o deus-ferreiro Hefesto, doente e aleijado. Quando descobriu o adultério, Hefesto forjou uma rede muito fina, quase invisível mas inexplicavelmente forte e que jamais poderia ser rompida. Soltando a rede sobre os amantes, Hefesto chamou os deuses para testemunharem esse adultério. O fato não abalou a paixão de ambos que tiveram uma filha, Harmonia, aquela que estabelece uma ligação equilibrada entre o amor e a paixão.

Marte e Vênus surpreendidos por Vulcano os equivalentes romanos de Ares e Afrodite e Hefesto respectivamente.
Pintura de Alexandre Charles Guillemot, 1827, Indianapolis Museum of Art. 

No nível psicológico Ares simboliza os instintos agressivos conscientes. Os cavalos que seguem direções opostas são os conflitos internos e desarmônicos, que precisam ser trabalhados, mas não reprimidos e esquecidos. Ares é o deus sem pai, o que significaria que não recebeu de um pai arquetípico o espírito da ética, mas ainda conta com vontade e força para sobrevivência no mundo competitivo.


No tarot, a carta O Carro, mostra Ares segurando com firmeza as rédeas de um cavalo branco e um preto que seguem em direções opostas, refletindo potenciais do bem e do mal contidos no instinto agressivo.

Descrevo aqui sucintamente uma carta que de alguma forma se relaciona com as artes marciais: "O Carro", no sentido de lidar com a ideia de conflito.

Ares é a figura que se encontra na carta "O Carro" no Tarot simbolizando a escolha entre os ímpetos naturais e muitos vezes violentos que abrigamos dentro de nós. É através dessa escolha que se alcança a maturidade de responder pelos atos e suas consequências na vida adulta, mesmo que isso signifique enfrentar a ira e conflito que foram invocados interna e externamente. Essa carta representa portanto nosso trabalho interno de lidar com forças opostas dentro de nós, mas que nos levam a um crescimento e fortalecimento de nossa personalidade, levando a uma harmonia em meio a nossas próprias contradições, levando-nos a uma nova etapa em nossa jornada.

Assim, chame-se de do, jornada ou caminho, cabe a cada um de nós descobrir dentro de nós mesmos, por diferentes estratégias, um sentido e significado nos acontecimentos de nossas vidas, ainda que dolorosos, pois esse é o impulso de nossa evolução pessoal.

fonte: O Tarot Mitológico (Liz Greene e Juliet Sharman-Burke, Ed. Siciliano)

1.12.15

Vale-aula personal

Embora eu não seja uma pessoa particularmente afeita ao consumismo exagerado, é fato que em Dezembro acabamos por comprar muitas coisas, várias desnecessárias, quando entramos nessa roda do calendário do mundo... E o furor de sair correndo para lá e para cá? Vai te tensionando e te atropelando e quando chegam aqueles 10 dias para descansar no final de ano você está um trapo e mal consegue relaxar o quanto precisa....



No sentido de propor uma opção diferente, estamos oferecendo agora em Dezembro e Janeiro aulas avulsas particulares como presente*. Portanto não é exatamente uma coisa, mas um tempo para si, ou para quem você quiser presentear com algo precioso, porque acaba sendo raro esse tempo....

A aula-presente particular de 1 hora de duração Corpo-Ki  é uma prática corporal de consciência corporal desenvolvida a partir da pesquisa de várias outras práticas (Reiki, Yoga, Aikido, Kinomichi, Lian Gong e Método Feldenkrais), que leva a um estado de tranquilidade e relaxamento.

Corpo-Ki  conduz à experiência de um corpo mais presente e portanto mais saudável. O foco desta atividade é guiar a busca individual da consciência corporal levando em consideração que parte desta busca envolve também a sensibilidade ao Ki, energia sutil.  "Corpo-Ki" engloba movimentos de baixo impacto, práticas respiratórias e de visualização que funcionam como um arado que traça o caminho da percepção sensorial ampliada e consciência







EXPERIMENTE & OFEREÇA!

Você pode comprar uma aula-presente personal de Corpo-Ki com validade de 1 mês. (manhã/tarde ou noite).

Oferecemos desconto se quiser comprar um pacote de aulas (que você pode dar para diferentes pessoas).

Para se informar sobre valores e outras dúvidas é só enviar um email para tatamitodojo@gmail.com ou ligar para 982906651.

* os vale-aulas devem ser agendados com pelo menos 48 horas de antecedência e é permitido apenas UMA remarcação desde que feita com 24 horas de antecedência.

5.11.15

"Funciona" porque é divertido

Quem nunca?


Hoje estava passeando com minha cachorra e vi esse aparelho de ginástica quase expulso de uma casa, num cantinho da garagem. Me lembrei de quando, lá pelos meus vinte e poucos anos, querendo entrar em forma comprei uma máquina de remo. A animação durou umas duas semanas. A disciplina pouco mais de um mês e no final acabei vendendo para um amigo.
Quem nunca?

Porque será que essas máquinas são tão pouco usadas ou as salas de ginásticas de tantos condomínios são tão pouco frequentadas? Meu palpite é de que é muito chato. Mas isso é apenas um julgamento da minha parte.

Objetivamente falando, é muito difícil manter a relação corpo/mente integrada quando fazemos exercícios nessas máquinas. Por serem extremamente repetitivos a mente se entedia e busca outro lugar para vagar, fora do corpo. Pode ser no aparelho de televisão mais próximo, na revista apoiada no console da esteira de correr, na lista do Spotify que flui pelos fones de ouvido...

Sim, nos especializamos em combater o tédio ocupando nossas mentes com algum tipo de atividade, geralmente dissociado da atividade física. Assim o corpo fica ali abandonado da consciência, se contraindo no vácuo da presença mental, correndo o risco de ser mal exercitado e ... lesionado.

Fazer alguma prática corporal com a cabeça em outro lugar além de trazer resultados físicos em tempo muito maior (comentário para aqueles que têm pressa), colabora com a dissociação dessa relação tão preciosa corpo/mente que é responsável pelo sentimento de serenidade e bem estar que tanto buscamos.

Na época em que comprei a minha máquina de remo eu ainda não havia descoberto o Aikido e ainda vivia os paradigmas da musculação de um corpo ausente. O Aikido Corpo-Ki, como meditação em movimento oferece uma oportunidade de integração dessa relação e é por isso que "funciona" *.

Atualmente tantos falam em meditação, e imaginam-se sentados, de olhos semi-cerrados numa grande quietude. Essa é a meditação clássica. Mas existem outras possibilidades, como no caso do Aikido Corpo-Ki no sentido do indivíduo estar completamente imerso na atividade física. Nem a mente nem o corpo no Aikido Corpo-Ki executam tarefas repetitivas: estão ambos profundamente conectados na realização dos movimentos e nas trocas energéticas que se estabelecem durante o treino. Embora aparentemente os movimentos se repitam, a relação com o outro nos coloca numa situação diferente a cada minuto durante a qual é impossível manter-nos no treino de forma ausente e automática (bem... é possível, mas isso é o que leva aos acidentes no tatame).

Essa relação que estabelecemos, de contato com o outro, além de nos manter alerta é extremamente divertida. Por causa do profundo respeito ao espírito de harmonia que cultivamos no Tatamito,  esse contato torna-se um desafio agradável, ainda que desafio. Cada pessoa com quem treinamos tem um ritmo, um estado de flexibilidade, um peso, uma disposição diferente que nos mantém em constante estado de consciência sobre a realidade presente: do que acontece conosco e com o outro.

Coisa bacana que é ver os sorrisos nos rostos dos alunos ao fim de um treino. E no meu também. E é por isso que "funciona"!

cultivando o alto astral ;)

*Afinal de contas o que é "funcionar"? Seria atingir a forma física perfeita? Isso é um conceito tão relativo. A palavra entre aspas é para ressaltar que talvez não devamos nos preocupar tanto com a utilidade imediata de uma atividade física, mas nos focarmos no prazer que ela nos proporciona e assim, efetivamente, caminharmos em direção a um bem estar global. Funcionar seria melhor compreendido como viver com saúde.

21.10.15

Ki e o corpo-passagem

No meu entender, a pesquisa do fluxo de ki é a parte essencial da pesquisa que o Aikido Corpo-Ki pode propor ao praticante. Sentir esse fluxo enquanto se prática, no entanto, não é fácil. Muitos de nós nos focamos mais na sequência de movimentos corporais (põe um pé aqui, faz o giro, a mão aplica a chave, etc...). Nesse ponto o que estamos vivenciando é sobretudo nosso corpo como um corpo-desenhante*, que se empenha nas movimentações circulares do Aikido para conduzir o outro (uke)  e levá-lo a um novo lugar.

Muitas vezes parece mesmo que não há espaço mental para prestar atenção neste fluxo. No entanto, a medida que vamos nos habituando com os movimentos, parece que começa a sobrar um espaço para essa percepção sutil e que no entanto é fundamental para a fruição da harmonia do movimento.

Embora esse aprendizado sobre o fluxo de ki deva ser sobretudo perceptivo, e portanto se dar durante a prática corporal, acredito que buscar reflexões sobre ele, ajuda no processo de incorporação desse conceito em nossas práticas de Aikido Corpo-Ki. Dessa forma, tenho buscado autores que reflitam sobre assuntos pertinentes, como por exemplo,  o filósofo japonês, Yasuo Yuasa, texto apresentado a mim pelo meu colega  Kezo Nogueira.

O conceito de fluxo de energia ki esta presente - coerentemente - em diversos aspectos da cultura oriental. Segundo Yasuo Yuasa,  o fluxo do ki na milenar medicina oriental enfatiza uma relação de extrema importância: a do corpo com o mundo. O corpo para o oriental não é algo destacado do mundo, uma muralha de isolamento para a mente. O corpo faz parte dele e é através da troca de energia ki que essa relação se dá ininterruptamente. O ki do universo nos alimenta e nós, nutrindo-nos com ele, emitimos ki conscientemente ao trocarmos um Reiki, por exemplo, ou ao praticarmos Aikido com consciência corporal.
No trecho de Yuasa (tradução minha):

"Em primeiro lugar, eu gostaria de pontuar a relação entre o corpo e o mundo externo. Como mencionado previamente, os pontos terminais de cada meridiano são os pontos distais dos membros, e existe uma troca de fluxo de ki com o mundo exterior através desses pontos distais.(...) Eu acho que esse ponto é a característica fundamental da teoria oriental do corpo. A medicina moderna primeiro separou o corpo do mundo externo, tomando-o como fechado, um sistema auto-contido, e então dissecando sua estrutura em vários órgãos tentou compreender suas funções respectivas. A medicina oriental , ao contrário, entendeu o corpo com um sistema aberto conectado ao mundo exterior. Ao fazer isso concebeu que, embora indetectável pela percepção sensorial, há uma troca de energia vital de algum tipo entre o corpo e o mundo externo, ou seja, há absorção e liberação de ki entre eles"

Assim, temos que o corpo, mais do que uma unidade blocada e independente,  funciona como um circuito aberto. O corpo carrega em si a potência de ser um corpo-passagem: ao nos conectarmos ao ki universal (que entra sobretudo pelo chakra coronário) nosso circuitos (meridianos) a transportam e  se fizermos isso com consciência, essa energia será transmitida em maior potencial de volta ao mundo, direcionada ao outro com quem praticamos (uke). É nessa hora que a prática alcança um estado todo especial. Quando o par uke/nague se conecta nesse fluxo é quando sentimos um "click": está funcionando! Nesse momento os corpos-desenhantes se complexam em corpos-passagem e dois (uke/nague) tornam-se um no movimento.

*o conceito de corpo-desenhante foi explorado em minha dissertação Diálogos em Linha, disponível para leitura na Biblioteca Digital da Unicamp.

1.8.15

Curando com o Ki

nikyo sendo aplicado no tatame

O Sensei Richard Moon, da California, teve uma experiência decisiva em sua vida há muitos anos atrás. Um dia, enquanto visitava sua mãe em San Diego, recebeu a notícia que seu irmão mais velho, Bill, teve um acidente sério com sua scooter e estava em coma em um hospital correndo risco de vida.
Passada uma semana do acidente, Bill continuava não respondendo e Richard havia voltado para casa pois a família insistia que não havia nada a ser feito no momento e ele tinha uma certeza interna de que seu irmão iria melhorar. Mas o tempo foi passando e esse sentimento foi se dissolvendo, dando lugar a uma sensação de desconforto e um desejo de voltar ao hospital. Assim, contrariando os conselhos familiares, Richard decidiu que pegaria um avião para cidade onde seu irmão estava internado. Com essa decisão, sua mãe, que estava indo embora para casa, decidiu permanecer e buscá-lo no aeroporto. Nessas alturas, já fazia um mês que Bill estava internado.

A seguir, um trecho traduzido do texto de "Healing with Ki" de Richard Moon (extraído do livro "A Way to Reconcile the World, edição de Quentin Cooke) que narra a chegada de Richard ao quarto onde estava seu irmão:

"Havia um residente no quarto fazendo sua ronda. Depois de sermos introduzidos, ele gritou no ouvido de Bill: "Seu irmão Richard está aqui."
O que se perdia com isso? Nada.
Apenas uma enfermeira no quarto. Minha mãe estava lá e Christine, a amiga de meu irmão chegou. Enquanto ambas permaneciam na ponta da cama, eu me aproximei gradualmente. Eu pus minhas mãos nele, uma no pescoço e outra em seu rosto. Eu falei com ele e o chamei mas não houve resposta.
A palavra ki do aiki significa energia ou força vital. Em meus estudos de aikido, por causa da minha natureza e meus interesses, eu dei muita atenção ao processo de cura pelo ki. Eu participei de seminários e procurei informação e professores focados nisso.
A cura pelo ki é a prática do fluxo consciente de ki, ou energia vital, para um machucado a fim de estimular o processo de cura. Uma mãe beijando uma criança machucada é um exemplo de transferência de ki. Eu usei a cura pelo ki inúmeras vezes, mas nunca numa situação como essa. Apesar de cético das minhas próprias impressões a princípio, eu experimentei o fluxo de ki semelhante a uma substância dourada, tipo um mel. Mesmo com todos os meus anos de treino, eu me impressionei como era tangível a experiência.
Da mesma esfera misteriosa de consciência que levou-me aqui em primeiro lugar, eu me senti impelido a tomar a mão de Bill e aplicar uma técnica de aikido chamada nikyo, uma chave de punho. Nikyo tem o potencial de criar grande pressão a ponto de levar a uma dor intensa. Todas as técnicas de aikido podem remontar ao conflito marcial, mas a maneira como eu aplicava a técnica naquele momento era diferente.
Eu estaca enviando o fluxo de energia como um contato com o centro de seu ser. Nessa abordagem da arte, minha atenção estava sintonizada a sensação de ki ou fluxo de energia, eu continuava. Depois que um movimento que parecia que suas pálpebras se agitaram e seus olhos pareceram mover-se como se procurassem algo, eu perguntei: "Bill, Bill, voce pode me ouvir?"
Embora o som viesse do fundo de sua garganta e estivesse muito truncado, nada claro, eu posso jurar que ele disse : "Sim".
Eu admito que eu queria tanto escutá-lo dizer algo que eu não tive certeza. Eu temia tanto estar inventando isso, que eu reforcei o nikyo e deixei fluir ainda mais energia para ele. Seus olhos estavam definitivamente respondendo. Eu tinha certeza agora. Eu disse:
- Bill, quem sou eu?
Do fundo de sua garganta, eu um tom truncado e quase ininteligível, ele disse:
- ..ichard.
Eu olhei em volta do quarto. Os olhos da enfermeiras estavam arregalados. Minha mãe e Christine ainda permaneciam aos pés da cama. Estavam de mãos dadas e com um olhar maravilhado. Ambas assentiram com a cabeça.
Cristine disse:
- Eu tenho certeza que ele disse Richard. Eu tenho certeza que ele disse seu nome.
Voce teria que estar lá e escutar o quão inteligível foi sua fala para entender a twilight zone em que estávamos naquele momento.
De volta a Bill, eu apliquei novamente nikyo e perguntei:
- Bill, você sente isso?
Ele disse:
-Sim.
Cada vez que ele falava, as palavras pareciam estar cada vez mais claras. Eu disse:
- Bill, fale meu nome.
Quando ele disse "Richard" dessa vez, nós nos entreolhamos. Nós tínhamos medo de acreditar, e mesmo assim nos todos estávamos certos que o havíamos escutado falar. Eu aumentei ainda mais a pressão. Eu disse:
- Bill, se isso doer, diga "tio".
Numa voz truncada, mas mesmo assim, distinguível, ele disse:
- Tio!
Foi alto e claro. Nesse momento nenhum de nós questionou. Nos entreolhamos em lágrimas, risadas e sorrisos.
A enfermeira em choque, parou o que fazia. Ela olhou para mim com seus olhos imensos e me perguntou:
- O que você está fazendo?
Eu expliquei sobre meus interesses na arte do aikido como estudo da energia da vida. Eu disse para ela que era usado tanto como para autodefesa como para cura. Eu disse a ela que estava transferindo o ki  ou a energia vital que cura para o meu irmão e que estava usando esse processo para fazer contato com a consciência dele.
Ela olhou para mim com educação. Era como se pudesse ouvi-la pensando que um de nós devia estar louco, e como eu era da Califórnia, não havia questão que devia ser eu. Ao mesmo tempo, ela estava lá e ela o viu responder. Ela deixou o quarto repentinamente.
Minha mãe estava em lágrimas. Ela correu ao telefone para chamar Gene que estava terminando uma residência na Clínica Mayo em Rochester. Quando ela voltou, ela disse que ele conseguiu alguém para substituí-lo e que estava saindo imediatamente. Ele e sua esposa estariam em Twin Cities em algumas horas.
Em menos de cinco minutos uma bateria de médicos entrou no quarto. A enfermeira provavelmente disse alguma coisa que os trouxe tão rapidamente. Eles estiveram com Bill por mais de 4 semanas e não viram nenhuma resposta consciente. Andaram em volta dele. Cutucaram-no. Estimularam-no. Falaram com ele, sem respostas.
Nesse meio tempo, Bill tinha voltado ao seus estado inconsciente e não dava respostas. Eles não viram nada. Eu sentia que eles me olhavam com o canto dos olhos, então não disse nada. Olhando para mim, eles deixaram o quarto.
Assim que eles saíram, meu pai inesperadamente entrou no quarto. Ele não sabia que eu viria e se surpreendeu ao me encontrar ali. Ele esteve no hospital todos os dias desde o acidente. A fadiga em seu rosto era evidente. Ele disse que no dia anterior chegou ao fundo do poço. Ele disse que havia passado a noite em lágrimas, com medo que Bill nunca retornasse. Minha mãe o interrompeu:
- Jay, ela disse, Bill acaba de falar o nome de Richard.
Eu fui até a cama e peguei na mão de meu irmão novamente e apliquei o nikyo. Seus olhos começaram a rolar. Suas pálpebras começaram a se agitar e abrir. Parecia que ele olhava em torno do quarto.
- Bill, você sabe quem está no quarto agora?
Ele não respondeu imediatamente, então , eu perguntei novamente:
- Bill, quem está no quarto agora?
Em sua profunda, truncada e quase ininteligível voz, ele respondeu:
- Papai."

O texto é longo. Continuo depois. A história é linda e sobretudo é real.
A história inteira está em inglês nesse livro inspirador editado por Quentin Cook que recomendo:

http://quentincooke.tumblr.com/






13.7.15

"Lembrando, resolvendo e integrando memórias"

("Remembering, Resolving, and Integrating Memories" de John Luijten, 3º Dan, Gen Ki Aikido Yuishinkai, Holanda, extraído do livro "A Way to Reconcile the World, edição de Quentin Cooke)


"Eu tenho 48 anos, vivo no sul da Holanda e pratico Aikido há 23 anos. Já faz 7 anos que tenho meu próprio dojo onde ensino crianças, adolescentes e adultos.
Um dia, uma aluna me perguntou se estaria interessado em ensinar aikido aos pacientes de uma clínica para problemas de saúde mental, tais como depressão, trauma, stress, vícios, pânico e ansiedade.
Eu disse:
- Sim!
Os pacientes ficavam na clínica por aproximadamente 7 semanas, e o Aikido era uma das aulas que eles faziam para criar uma mente saudável em um corpo saudável. Eram divididos em quatro grupos com 10 a 15 pessoas. Duas vezes por mês eu dava aulas para dois grupo no sábado e dois grupos no domingo. Eu nunca sabia do que o paciente estava sendo tratado. No tempo limitado que eu tinha com eles, eu não esperava nada além de demonstrar o quão relaxados e positivos o treino poderia faze-los se sentir e abrir uma porta aos pacientes ao mundo do Aikido assim que seu tratamento terminasse.
Nas aulas praticamos exercícios de ki, princípios do aikido e hambo kata (exercícios com bastão médio).
Durante uma dessas aulas quando eu estava ensinando o kata, uma paciente começou a chorar e saiu da sala. Depois da aula, ela voltou e me contou a razão de sua explosão emocional.
Anos atrás quando ela trabalhava na Africa fazendo um trabalho missionário, ela testemunhou a morte de um homem por pauladas. Ela bloqueou esse evento em sua mente, não falando ou sequer pensando sobre ele até a aula com o hambo trazer o evento de volta a ela. Ela se surpreendeu com o acontecido, pois ela não se dava conta do problema, embora sua reação tenha provado o contrário. Como resultado, ela falou com o incidente a seus terapeutas e juntos, ela conseguiu processar e lidar com essa lembrança há muito tempo enterrada na memória.
Depois de duas semanas ela me pediu para fazer novamente o kata. Dessa vez ela permaneceu e terminou o kata, assim como a aula toda. Ela estava muito feliz pois para ela isso assinalava que ela finalmente chegou a um acordo com seu terrível trauma.
Nunca lhe havia ocorrido que esse evento, na verdade, a estava afetando profundamente sua vida desde aquele tempo, e no entanto, este exercício simples pode abrir uma janela para seu subconsciente, o que permitiu a ela retomar o trilho. Foi muito bonito ver o alívio e alegria em seu rosto, e para mim foi um exemplo maravilhoso do porquê escolhi ensinar essa maravilhosa arte.
Como disse o fundador: "A verdadeira vitória é a vitória sobre si mesmo, masakatsu agastu."



3.7.15

"Vá em frente, chute-me"

(Go Ahead, Kick Me de Tara Dalton, 11 anos, Aikido of Santa Cruz, EUA - extraido do livro "A Way to Reconcile the World, edição de Quentin Cooke)


"No verão passado nós fomos com meus primos Ben e Marrisa para a cabana de nossos avós em Lake Tahoe. Nós estivemos brincando juntos muito bem até que um dia quando estávamos lá fora, Ben falou para meu irmão Tola:
- Aposto que você não pode me chutar.
Tola respondeu:
- Eu não quero te chutar.

Mas Ben disse:
- É porque você não pode.
Tola não via as coisas daquela maneira. Ele disse:
- Eu não quero te chutar porque você é meu primo e eu não quero te machucar. Além disso, estamos de férias. Nós deveríamos estar nos divertindo e não brigando.
Ben disse:
- Vá em frente, chute-me. Chute-me enquanto eu estiver de olhos fechados.
Ele virou as costas e fechou os olhos.
Nós decidimos que não havia mais nada a ser dito que pudesse convence-lo, então fomos para dentro fazer aviõezinhos de papel. Um pouco depois, Ben pensou e entrou para fazer aviõezinhos também."
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2.7.15

"Tarde da noite"

(Late One Night de David Gross, extraído do livro "A Way to Reconcile the World", organização de Quentin Cooke)

"Era tarde da noite e eu estava voltando para casa em uma calçada larga, bem iluminada e deserta que passava em frente a uma concessionária da Chevy. Vindo na minha direção estavam dois sujeitos e embora eles estivessem fora do meu caminho, eles davam a impressão de estarem bêbados pela maneira como seus ombros e cotovelos se mexiam conforme caminhavam. Eles pareciam estar procurando encrenca pelo jeito com que batiam e chutavam os carros e caminhões a medida que passavam.
Eles estavam do lado direito da calçada quando se aproximaram de mim. Eu me movi para a esquerda, na esperança de que o espaço de uns dois metros seria uma proteção para mim. A medida que se aproximavam, um dos caras me abordou. Ele levantou a mão para me atacar. Meu treinamento de aikido estava em mim. Àquela altura, mesmo com toda a tensão no ar, eu não me encolhi nem me tornei agressivo.
A mão dele desceu na direção da minha cabeça, eu a alcancei e o cumprimentei. Ele meio que pulou.
"Oh, como vai?" ele deixou escapar.
Nos trocamos comprimentos e continuamos em nossos respectivos caminhos.
Esse foi o melhor do meu aikido. Eu não reagi ao extremo. Eu não antecipei ou tentei forçar a situação. A violência foi dissolvida de forma segura. Aconteceu sem eu planejar ou pensar. Meu coração em minha garganta e o seu batido alto em meus ouvidos até chegar em casa."

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28.4.15

Os linfócitos, as metáforas e o aikido corpo-ki

Em tempos de mudanças de temperatura, pelo menos aqui em São Paulo, as drogarias lotam de pessoas alérgicas e/ou gripadas com muito mais frequência. Isso me fez pensar ultimamente sobre o nosso sistema imunológico.

Aqueles que estudaram biologia no século XX devem se lembrar de ter aprendido que os linfócitos, também conhecidos como glóbulos brancos, eram os "soldadinhos" do corpo. 

No entanto, em 1994, Francisco Varela e Mark Anspach*, ao atentarem para a característica de diferenciação dos linfócitos entre si, concluíram que  os anticorpos  produzidos  pelos linfócitos formam o grupo molecular mais diversificado do corpo. Os linfócitos são qualificados para garantir a constante mudança e a diversidade de outras moléculas. Circulando no organismo, os linfócitos podem encontrar tanto com moléculas de tecido orgânico (self) como com antígenos (não-self), ou seja,  têm uma função de reconhecimento. Os autores descobriram que a constante troca nos linfócitos envolve um processo ativo que inclui aprendizagem e memória. Assim, o sistema imunológico além da função defensiva, apresenta capacidade cognitiva inegável. Esta mudança de metáforas - do exército para a de rede inteligente com habilidade cognitiva  nos faz concluir: pensamos e aprendemos com o corpo todo e não apenas com o cérebro e o sistema nervoso.

Francisco Varela (1946-2001) encontrando com o 14º Dalai Lama

O entendimento desta nova metáfora, reforça portanto, as teorias do corpo integrado  a que se refere a filosofia oriental (em contraponto ao corpo em partes do pensamento predominante ocidental, o corpo tratado pelas especialidades médicas específicas) e da íntima relação entre doença/aprendizado.

Já que falamos em metáforas, é interessante pontuar que para alguns pesquisadores - Lakoff e Johnson, Metaphors we live by, 1980 - todo nosso sistema conceitual é metafórico. Estruturamos uma experiência a partir de outra - as chamadas metáforas estruturais. A própria etimologia da palavra - que vem do grego - μεταφορά - transporte ou transferência, ou seja, com o uso de metáforas acontece um transporte de pensamentos.  Para uma a metáfora servir como veiculo para o entendimento é necessária a experiência corporal prática, o que a torna uma metáfora incorporada (embodied cognition).  A cognição é uma atividade dinâmica sensório-motora e portanto, experimentada não apenas pela atividade neural, mas emerge das atividades do corpo do indivíduo.

O aprendizado do Aikido Corpo-Ki - arte marcial e portanto corporal - promove uma experiência prática corporal que se vale da metáfora ataque/defesa para estimular a incorporação do estado de harmonia interior do indivíduo. Embora tenha se desenvolvido muito antes de tais teorias, o Aikido Corpo-Ki se vale da premissa da embodied cognition, ou seja, metáforas em práticas pelo corpo são incorporadas à mente e consequentemente, às atitudes do indivíduo.

Aqui voltamos à metáfora militar, uma vez que o Aikido foi desenvolvido a partir dos princípios do budô, as artes marciais ensinadas com o objetivo de defesa militar. Mas o Aikido Corpo-Ki não pretende que esta ideia seja levada ao pé da letra. A prática procura criar uma tensão para que esta seja superada, não apenas na realidade do tatame, mas na realidade do indivíduo. Muitas pessoas confundem essa proposta, imaginando que o principal "efeito" do Aikido Corpo-Ki em suas vidas seria a capacidade de se defenderem no caso de um assalto, por exemplo. Muito além de ser literal, o Aikido Corpo-Ki nos prepara para outros tipos de ataques, situações agressivas com as quais nos deparamos no nosso dia-a-dia, que podem surgir desde um singelo telefonema a um trânsito tenso. Paulistanos sabem bem sobre esse tipo de experiência...

Assim como os linfócitos nos ajudam a aprender sobre aquilo que é estranho e perigoso para nós, as práticas do Aikido Corpo-Ki nos preparam para estarmos alertas para aquilo que nos é potencialmente agressivo, seja vindo de fora, mas sobretudo vindo de nós mesmos. 


*fonte: GREINER, C. O Corpo. Pistas para estudos indisciplinares