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5.6.16

Arte como Caminho : workshops 2016



Venha desvendar seu corpo-desenhante!
Faca-gesto, Mirla Fernandes, nanquim, 2016



O QUE:
O workshop Arte como Caminho/Módulo I é indicado para pessoas interessadas em trabalhar sua sensibilidade artística por meio de investigações das conexões entre corpo, olhar, gestos e pintura. O workshop se vale de técnicas e conceitos orientais e ocidentais para ampliação da autoconsciência e maior interiorização durante a prática artística.


POR QUE:
O processo de desenhar é também um processo de pensar e intimamente ligado ao movimento do corpo todo, e por isso deve ser dinâmico e plástico. Libertar-se de hábitos, preconceitos sobre si mesmo ("eu não sei desenhar", ou "eu já sei desenhar") é estar mais vivo, em fluxo, em harmonia com seus propósitos pessoais.






Confira os depoimentos de quem já fez:  

“Fazer algo diferente da minha rotina, que estimule o lúdico, a imaginação, a "soltura do dia-a-dia" duro e cimentado que temos hoje. E fazer isso com o corpo foi uma grata surpresa também." (Andrea Vianna, publicitária)


"Descobri muitas coisas, algumas que eu não consigo colocar em palavras. Mas principalmente sobre estar presente, usar de muitas formas um mesmo instrumento com resultados surpreendentes” (Patricia Stavis, fotógrafa)


A liberdade alcançada no corpo através do novo olhar e consciência tem sido muito prazerosa e inspiradora para meu trabalho e também na minha vida.(Victoria Oggiam, bailarina)


"Descobri que não é preciso estar pronta para começar."(Ana Passos, joalheira)


"Não temos controle. Quanto menos tentarmos controlar, resultados mais interessantes acontecerão; Desenhar e pintar não é só uma mão e braço, é todo o movimento do corpo." (Bernardo Borges, designer gráfico)






COM QUEM:
Mirla Fernandes é artista visual e instrutora de aikido corpo-ki do Tatamito, Espaço Multiterritórios de Transformação Pessoal.
"Diante de meu envolvimento cada vez maior com a pesquisa da energia ki, meu trabalho artístico dirigiu-se neste sentido. Atualmente dedico-me a pintura sobre papel com nanquim, com foco na relação corpo/gesto/liberação de ki. Compartilho essa pesquisa através do curso "Arte como Caminho".
Conheça seu portfólio em www.mirlafernandes.com

COMO:
Não é preciso experiência artística para participar.
O material é incluso.

QUANDO:
Para um aproveitamento de profundidade cada workshop tem apenas 4 vagas*.

Opções de Horários em Junho:
Sábado (11 de junho )           10h00/13h00
Segunda feira (13 de Junho) 19h00/22h00
Quinta feira (16 de Junho)       9h00/12h00


*É possível também optar por aula particular: informe-se sobre horários e valores.

QUANTO:
Pagamento na inscrição por transferência bancária ou cartão de crédito (via paypal)  R$380,00.



CONTATO:  11 98290 6651   tatamitodojo@gmail.com

Workshop "Arte como Caminho"

Inscreva-se e informe-se sobre valores/datas alternativas (particular, curso estendido)


28.1.16

Um caminho para a harmonia


Lojong: 8 versos que transformam a mente*

1. Com a determinação de alcançar
O bem supremo em benefício de todos os seres sencientes,
Mais preciosos do que uma jóia mágica que realiza desejos,
Vou aprender a prezá-los e estimá-los no mais alto grau.

2. Sempre que estiver na companhia de outras pessoas, vou aprender
A pensar em minha pessoa como a mais insignificante dentre elas,
E, com todo respeito, considerá-las supremas,
Do fundo do meu coração.

3. Em todos os meus atos, vou aprender a examinar a minha mente
E, sempre que surgir uma emoção negativa,
Pondo em risco a mim mesmo e aos outros,
Vou, com firmeza, enfrentá-la e evitá-la.

4. Vou prezar os seres que têm natureza perversa
E aqueles sobre os quais pesam fortes negatividades e sofrimentos,
Como se eu tivesse encontrado um tesouro precioso,
Muito difícil de achar.

5. Quando os outros, por inveja, maltratarem a minha pessoa,
Ou a insultarem e caluniarem,
Vou aprender a aceitar a derrota,
E a eles oferecer a vitória.

6. Quando alguém a quem ajudei com grande esperança
Magoar ou ferir a minha pessoa, mesmo sem motivo,
Vou aprender a ver essa outra pessoa
Como um excelente guia espiritual.

7. Em suma, vou aprender a oferecer a todos, sem exceção,
Toda a ajuda e felicidade, por meios diretos e indiretos,
E a tomar sobre mim, em sigilo,
Todos os males e sofrimentos daqueles que foram minhas mães.

8. Vou aprender a manter estas práticas
Isentas das máculas das oito preocupações mundanas,
E, ao compreender todos os fenômenos como ilusórios,
Serei libertado da escravidão do apego.




*autor: Geshe Langri Tangpa (1054-1123)

21.10.15

Ki e o corpo-passagem

No meu entender, a pesquisa do fluxo de ki é a parte essencial da pesquisa que o Aikido Corpo-Ki pode propor ao praticante. Sentir esse fluxo enquanto se prática, no entanto, não é fácil. Muitos de nós nos focamos mais na sequência de movimentos corporais (põe um pé aqui, faz o giro, a mão aplica a chave, etc...). Nesse ponto o que estamos vivenciando é sobretudo nosso corpo como um corpo-desenhante*, que se empenha nas movimentações circulares do Aikido para conduzir o outro (uke)  e levá-lo a um novo lugar.

Muitas vezes parece mesmo que não há espaço mental para prestar atenção neste fluxo. No entanto, a medida que vamos nos habituando com os movimentos, parece que começa a sobrar um espaço para essa percepção sutil e que no entanto é fundamental para a fruição da harmonia do movimento.

Embora esse aprendizado sobre o fluxo de ki deva ser sobretudo perceptivo, e portanto se dar durante a prática corporal, acredito que buscar reflexões sobre ele, ajuda no processo de incorporação desse conceito em nossas práticas de Aikido Corpo-Ki. Dessa forma, tenho buscado autores que reflitam sobre assuntos pertinentes, como por exemplo,  o filósofo japonês, Yasuo Yuasa, texto apresentado a mim pelo meu colega  Kezo Nogueira.

O conceito de fluxo de energia ki esta presente - coerentemente - em diversos aspectos da cultura oriental. Segundo Yasuo Yuasa,  o fluxo do ki na milenar medicina oriental enfatiza uma relação de extrema importância: a do corpo com o mundo. O corpo para o oriental não é algo destacado do mundo, uma muralha de isolamento para a mente. O corpo faz parte dele e é através da troca de energia ki que essa relação se dá ininterruptamente. O ki do universo nos alimenta e nós, nutrindo-nos com ele, emitimos ki conscientemente ao trocarmos um Reiki, por exemplo, ou ao praticarmos Aikido com consciência corporal.
No trecho de Yuasa (tradução minha):

"Em primeiro lugar, eu gostaria de pontuar a relação entre o corpo e o mundo externo. Como mencionado previamente, os pontos terminais de cada meridiano são os pontos distais dos membros, e existe uma troca de fluxo de ki com o mundo exterior através desses pontos distais.(...) Eu acho que esse ponto é a característica fundamental da teoria oriental do corpo. A medicina moderna primeiro separou o corpo do mundo externo, tomando-o como fechado, um sistema auto-contido, e então dissecando sua estrutura em vários órgãos tentou compreender suas funções respectivas. A medicina oriental , ao contrário, entendeu o corpo com um sistema aberto conectado ao mundo exterior. Ao fazer isso concebeu que, embora indetectável pela percepção sensorial, há uma troca de energia vital de algum tipo entre o corpo e o mundo externo, ou seja, há absorção e liberação de ki entre eles"

Assim, temos que o corpo, mais do que uma unidade blocada e independente,  funciona como um circuito aberto. O corpo carrega em si a potência de ser um corpo-passagem: ao nos conectarmos ao ki universal (que entra sobretudo pelo chakra coronário) nosso circuitos (meridianos) a transportam e  se fizermos isso com consciência, essa energia será transmitida em maior potencial de volta ao mundo, direcionada ao outro com quem praticamos (uke). É nessa hora que a prática alcança um estado todo especial. Quando o par uke/nague se conecta nesse fluxo é quando sentimos um "click": está funcionando! Nesse momento os corpos-desenhantes se complexam em corpos-passagem e dois (uke/nague) tornam-se um no movimento.

*o conceito de corpo-desenhante foi explorado em minha dissertação Diálogos em Linha, disponível para leitura na Biblioteca Digital da Unicamp.

1.8.15

Curando com o Ki

nikyo sendo aplicado no tatame

O Sensei Richard Moon, da California, teve uma experiência decisiva em sua vida há muitos anos atrás. Um dia, enquanto visitava sua mãe em San Diego, recebeu a notícia que seu irmão mais velho, Bill, teve um acidente sério com sua scooter e estava em coma em um hospital correndo risco de vida.
Passada uma semana do acidente, Bill continuava não respondendo e Richard havia voltado para casa pois a família insistia que não havia nada a ser feito no momento e ele tinha uma certeza interna de que seu irmão iria melhorar. Mas o tempo foi passando e esse sentimento foi se dissolvendo, dando lugar a uma sensação de desconforto e um desejo de voltar ao hospital. Assim, contrariando os conselhos familiares, Richard decidiu que pegaria um avião para cidade onde seu irmão estava internado. Com essa decisão, sua mãe, que estava indo embora para casa, decidiu permanecer e buscá-lo no aeroporto. Nessas alturas, já fazia um mês que Bill estava internado.

A seguir, um trecho traduzido do texto de "Healing with Ki" de Richard Moon (extraído do livro "A Way to Reconcile the World, edição de Quentin Cooke) que narra a chegada de Richard ao quarto onde estava seu irmão:

"Havia um residente no quarto fazendo sua ronda. Depois de sermos introduzidos, ele gritou no ouvido de Bill: "Seu irmão Richard está aqui."
O que se perdia com isso? Nada.
Apenas uma enfermeira no quarto. Minha mãe estava lá e Christine, a amiga de meu irmão chegou. Enquanto ambas permaneciam na ponta da cama, eu me aproximei gradualmente. Eu pus minhas mãos nele, uma no pescoço e outra em seu rosto. Eu falei com ele e o chamei mas não houve resposta.
A palavra ki do aiki significa energia ou força vital. Em meus estudos de aikido, por causa da minha natureza e meus interesses, eu dei muita atenção ao processo de cura pelo ki. Eu participei de seminários e procurei informação e professores focados nisso.
A cura pelo ki é a prática do fluxo consciente de ki, ou energia vital, para um machucado a fim de estimular o processo de cura. Uma mãe beijando uma criança machucada é um exemplo de transferência de ki. Eu usei a cura pelo ki inúmeras vezes, mas nunca numa situação como essa. Apesar de cético das minhas próprias impressões a princípio, eu experimentei o fluxo de ki semelhante a uma substância dourada, tipo um mel. Mesmo com todos os meus anos de treino, eu me impressionei como era tangível a experiência.
Da mesma esfera misteriosa de consciência que levou-me aqui em primeiro lugar, eu me senti impelido a tomar a mão de Bill e aplicar uma técnica de aikido chamada nikyo, uma chave de punho. Nikyo tem o potencial de criar grande pressão a ponto de levar a uma dor intensa. Todas as técnicas de aikido podem remontar ao conflito marcial, mas a maneira como eu aplicava a técnica naquele momento era diferente.
Eu estaca enviando o fluxo de energia como um contato com o centro de seu ser. Nessa abordagem da arte, minha atenção estava sintonizada a sensação de ki ou fluxo de energia, eu continuava. Depois que um movimento que parecia que suas pálpebras se agitaram e seus olhos pareceram mover-se como se procurassem algo, eu perguntei: "Bill, Bill, voce pode me ouvir?"
Embora o som viesse do fundo de sua garganta e estivesse muito truncado, nada claro, eu posso jurar que ele disse : "Sim".
Eu admito que eu queria tanto escutá-lo dizer algo que eu não tive certeza. Eu temia tanto estar inventando isso, que eu reforcei o nikyo e deixei fluir ainda mais energia para ele. Seus olhos estavam definitivamente respondendo. Eu tinha certeza agora. Eu disse:
- Bill, quem sou eu?
Do fundo de sua garganta, eu um tom truncado e quase ininteligível, ele disse:
- ..ichard.
Eu olhei em volta do quarto. Os olhos da enfermeiras estavam arregalados. Minha mãe e Christine ainda permaneciam aos pés da cama. Estavam de mãos dadas e com um olhar maravilhado. Ambas assentiram com a cabeça.
Cristine disse:
- Eu tenho certeza que ele disse Richard. Eu tenho certeza que ele disse seu nome.
Voce teria que estar lá e escutar o quão inteligível foi sua fala para entender a twilight zone em que estávamos naquele momento.
De volta a Bill, eu apliquei novamente nikyo e perguntei:
- Bill, você sente isso?
Ele disse:
-Sim.
Cada vez que ele falava, as palavras pareciam estar cada vez mais claras. Eu disse:
- Bill, fale meu nome.
Quando ele disse "Richard" dessa vez, nós nos entreolhamos. Nós tínhamos medo de acreditar, e mesmo assim nos todos estávamos certos que o havíamos escutado falar. Eu aumentei ainda mais a pressão. Eu disse:
- Bill, se isso doer, diga "tio".
Numa voz truncada, mas mesmo assim, distinguível, ele disse:
- Tio!
Foi alto e claro. Nesse momento nenhum de nós questionou. Nos entreolhamos em lágrimas, risadas e sorrisos.
A enfermeira em choque, parou o que fazia. Ela olhou para mim com seus olhos imensos e me perguntou:
- O que você está fazendo?
Eu expliquei sobre meus interesses na arte do aikido como estudo da energia da vida. Eu disse para ela que era usado tanto como para autodefesa como para cura. Eu disse a ela que estava transferindo o ki  ou a energia vital que cura para o meu irmão e que estava usando esse processo para fazer contato com a consciência dele.
Ela olhou para mim com educação. Era como se pudesse ouvi-la pensando que um de nós devia estar louco, e como eu era da Califórnia, não havia questão que devia ser eu. Ao mesmo tempo, ela estava lá e ela o viu responder. Ela deixou o quarto repentinamente.
Minha mãe estava em lágrimas. Ela correu ao telefone para chamar Gene que estava terminando uma residência na Clínica Mayo em Rochester. Quando ela voltou, ela disse que ele conseguiu alguém para substituí-lo e que estava saindo imediatamente. Ele e sua esposa estariam em Twin Cities em algumas horas.
Em menos de cinco minutos uma bateria de médicos entrou no quarto. A enfermeira provavelmente disse alguma coisa que os trouxe tão rapidamente. Eles estiveram com Bill por mais de 4 semanas e não viram nenhuma resposta consciente. Andaram em volta dele. Cutucaram-no. Estimularam-no. Falaram com ele, sem respostas.
Nesse meio tempo, Bill tinha voltado ao seus estado inconsciente e não dava respostas. Eles não viram nada. Eu sentia que eles me olhavam com o canto dos olhos, então não disse nada. Olhando para mim, eles deixaram o quarto.
Assim que eles saíram, meu pai inesperadamente entrou no quarto. Ele não sabia que eu viria e se surpreendeu ao me encontrar ali. Ele esteve no hospital todos os dias desde o acidente. A fadiga em seu rosto era evidente. Ele disse que no dia anterior chegou ao fundo do poço. Ele disse que havia passado a noite em lágrimas, com medo que Bill nunca retornasse. Minha mãe o interrompeu:
- Jay, ela disse, Bill acaba de falar o nome de Richard.
Eu fui até a cama e peguei na mão de meu irmão novamente e apliquei o nikyo. Seus olhos começaram a rolar. Suas pálpebras começaram a se agitar e abrir. Parecia que ele olhava em torno do quarto.
- Bill, você sabe quem está no quarto agora?
Ele não respondeu imediatamente, então , eu perguntei novamente:
- Bill, quem está no quarto agora?
Em sua profunda, truncada e quase ininteligível voz, ele respondeu:
- Papai."

O texto é longo. Continuo depois. A história é linda e sobretudo é real.
A história inteira está em inglês nesse livro inspirador editado por Quentin Cook que recomendo:

http://quentincooke.tumblr.com/






3.7.15

"Vá em frente, chute-me"

(Go Ahead, Kick Me de Tara Dalton, 11 anos, Aikido of Santa Cruz, EUA - extraido do livro "A Way to Reconcile the World, edição de Quentin Cooke)


"No verão passado nós fomos com meus primos Ben e Marrisa para a cabana de nossos avós em Lake Tahoe. Nós estivemos brincando juntos muito bem até que um dia quando estávamos lá fora, Ben falou para meu irmão Tola:
- Aposto que você não pode me chutar.
Tola respondeu:
- Eu não quero te chutar.

Mas Ben disse:
- É porque você não pode.
Tola não via as coisas daquela maneira. Ele disse:
- Eu não quero te chutar porque você é meu primo e eu não quero te machucar. Além disso, estamos de férias. Nós deveríamos estar nos divertindo e não brigando.
Ben disse:
- Vá em frente, chute-me. Chute-me enquanto eu estiver de olhos fechados.
Ele virou as costas e fechou os olhos.
Nós decidimos que não havia mais nada a ser dito que pudesse convence-lo, então fomos para dentro fazer aviõezinhos de papel. Um pouco depois, Ben pensou e entrou para fazer aviõezinhos também."
http://quentincooke.tumblr.com/



2.7.15

"Tarde da noite"

(Late One Night de David Gross, extraído do livro "A Way to Reconcile the World", organização de Quentin Cooke)

"Era tarde da noite e eu estava voltando para casa em uma calçada larga, bem iluminada e deserta que passava em frente a uma concessionária da Chevy. Vindo na minha direção estavam dois sujeitos e embora eles estivessem fora do meu caminho, eles davam a impressão de estarem bêbados pela maneira como seus ombros e cotovelos se mexiam conforme caminhavam. Eles pareciam estar procurando encrenca pelo jeito com que batiam e chutavam os carros e caminhões a medida que passavam.
Eles estavam do lado direito da calçada quando se aproximaram de mim. Eu me movi para a esquerda, na esperança de que o espaço de uns dois metros seria uma proteção para mim. A medida que se aproximavam, um dos caras me abordou. Ele levantou a mão para me atacar. Meu treinamento de aikido estava em mim. Àquela altura, mesmo com toda a tensão no ar, eu não me encolhi nem me tornei agressivo.
A mão dele desceu na direção da minha cabeça, eu a alcancei e o cumprimentei. Ele meio que pulou.
"Oh, como vai?" ele deixou escapar.
Nos trocamos comprimentos e continuamos em nossos respectivos caminhos.
Esse foi o melhor do meu aikido. Eu não reagi ao extremo. Eu não antecipei ou tentei forçar a situação. A violência foi dissolvida de forma segura. Aconteceu sem eu planejar ou pensar. Meu coração em minha garganta e o seu batido alto em meus ouvidos até chegar em casa."

http://quentincooke.tumblr.com/


28.4.15

Os linfócitos, as metáforas e o aikido corpo-ki

Em tempos de mudanças de temperatura, pelo menos aqui em São Paulo, as drogarias lotam de pessoas alérgicas e/ou gripadas com muito mais frequência. Isso me fez pensar ultimamente sobre o nosso sistema imunológico.

Aqueles que estudaram biologia no século XX devem se lembrar de ter aprendido que os linfócitos, também conhecidos como glóbulos brancos, eram os "soldadinhos" do corpo. 

No entanto, em 1994, Francisco Varela e Mark Anspach*, ao atentarem para a característica de diferenciação dos linfócitos entre si, concluíram que  os anticorpos  produzidos  pelos linfócitos formam o grupo molecular mais diversificado do corpo. Os linfócitos são qualificados para garantir a constante mudança e a diversidade de outras moléculas. Circulando no organismo, os linfócitos podem encontrar tanto com moléculas de tecido orgânico (self) como com antígenos (não-self), ou seja,  têm uma função de reconhecimento. Os autores descobriram que a constante troca nos linfócitos envolve um processo ativo que inclui aprendizagem e memória. Assim, o sistema imunológico além da função defensiva, apresenta capacidade cognitiva inegável. Esta mudança de metáforas - do exército para a de rede inteligente com habilidade cognitiva  nos faz concluir: pensamos e aprendemos com o corpo todo e não apenas com o cérebro e o sistema nervoso.

Francisco Varela (1946-2001) encontrando com o 14º Dalai Lama

O entendimento desta nova metáfora, reforça portanto, as teorias do corpo integrado  a que se refere a filosofia oriental (em contraponto ao corpo em partes do pensamento predominante ocidental, o corpo tratado pelas especialidades médicas específicas) e da íntima relação entre doença/aprendizado.

Já que falamos em metáforas, é interessante pontuar que para alguns pesquisadores - Lakoff e Johnson, Metaphors we live by, 1980 - todo nosso sistema conceitual é metafórico. Estruturamos uma experiência a partir de outra - as chamadas metáforas estruturais. A própria etimologia da palavra - que vem do grego - μεταφορά - transporte ou transferência, ou seja, com o uso de metáforas acontece um transporte de pensamentos.  Para uma a metáfora servir como veiculo para o entendimento é necessária a experiência corporal prática, o que a torna uma metáfora incorporada (embodied cognition).  A cognição é uma atividade dinâmica sensório-motora e portanto, experimentada não apenas pela atividade neural, mas emerge das atividades do corpo do indivíduo.

O aprendizado do Aikido Corpo-Ki - arte marcial e portanto corporal - promove uma experiência prática corporal que se vale da metáfora ataque/defesa para estimular a incorporação do estado de harmonia interior do indivíduo. Embora tenha se desenvolvido muito antes de tais teorias, o Aikido Corpo-Ki se vale da premissa da embodied cognition, ou seja, metáforas em práticas pelo corpo são incorporadas à mente e consequentemente, às atitudes do indivíduo.

Aqui voltamos à metáfora militar, uma vez que o Aikido foi desenvolvido a partir dos princípios do budô, as artes marciais ensinadas com o objetivo de defesa militar. Mas o Aikido Corpo-Ki não pretende que esta ideia seja levada ao pé da letra. A prática procura criar uma tensão para que esta seja superada, não apenas na realidade do tatame, mas na realidade do indivíduo. Muitas pessoas confundem essa proposta, imaginando que o principal "efeito" do Aikido Corpo-Ki em suas vidas seria a capacidade de se defenderem no caso de um assalto, por exemplo. Muito além de ser literal, o Aikido Corpo-Ki nos prepara para outros tipos de ataques, situações agressivas com as quais nos deparamos no nosso dia-a-dia, que podem surgir desde um singelo telefonema a um trânsito tenso. Paulistanos sabem bem sobre esse tipo de experiência...

Assim como os linfócitos nos ajudam a aprender sobre aquilo que é estranho e perigoso para nós, as práticas do Aikido Corpo-Ki nos preparam para estarmos alertas para aquilo que nos é potencialmente agressivo, seja vindo de fora, mas sobretudo vindo de nós mesmos. 


*fonte: GREINER, C. O Corpo. Pistas para estudos indisciplinares

17.3.15

Arte como Caminho



aula de Arte como Caminho

em japonês quer dizer caminho: Aikido (Caminho da Harmonia),  Judo (Suave Caminho), Shodo (Caminho da Escrita) e por ai vai.... A ideia de caminho permeia a cultura oriental e indica sobretudo que a vida é um caminho, um processo que se desenrola e no qual vale a pena buscar a consciência para poder evoluir. 
“A arte do dô, de forma similar ao santuário, em vez de valorizar a consequência, lança luz sobre o “modo pelo qual” se efetiva uma ação, sobre a montagem processual para alcançar ou conquistar uma determinada habilidade artística com a busca de uma espiritualidade mais elevada”*
 
É com essa mentalidade, de enfoque no caminho que proponho o curso "Arte como Caminho", uma proposta derivada de minhas próprias pesquisas artísticas que vêm sendo contaminadas pelo pensamento oriental há muito tempo.


Funakogi Undo, 2013, nanquim sobre papel



Voltado para pessoas interessadas na ampliação do estado de concentração e autoconsciência, propomos exercícios de práticas físicas (individuais e em duplas) e artísticas, que levam a uma percepção do ki ampliada, sua relação com o corpo em movimento e sua relação com o estabelecimento de uma condição de centramento e predisposição à harmonia.


As aulas tem a duração de 1h30, sendo que os primeiros 50 minutos são dedicados às práticas físicas, só então os alunos passam as práticas artísticas com pincel japonês. Durante ambas as práticas traçamos correlações entre os movimentos do corpo no encontro com o outro e na relação pincel/papel.


'Anatomia' do pincel fude




Aulas semanais para grupos de no máximo 4 pessoas
 Reservas e mais informações sobre horários por email
ou telefone/whatsapp: 98290 66561

*(in Okano, Michiko. Prefácio. in Dô – Caminho da Arte: do belo do Japão ao Brasil. Org. Cecilia Kimie Jo Shioda, Eunice Vaz Yoshiura, Neide Hissae Nagae. São Paulo: Unesp, 2013).

16.11.14

Flow no Aikido

Estado de Flow é um conceito desenvolvido por Mihaly Csikszentmihalyi. Quando estamos em flow estamos focados, felizes, serenos, com um sentimento de clareza e crescimento pessoal .
Praticando Aikido há mais de dez anos, percebo que essa atividade nos permite alcançar um estado de flow.

No video abaixo, o autor de  Flow - the psycology of optimal experience fala sobre isso: