1.8.15

Curando com o Ki

nikyo sendo aplicado no tatame

O Sensei Richard Moon, da California, teve uma experiência decisiva em sua vida há muitos anos atrás. Um dia, enquanto visitava sua mãe em San Diego, recebeu a notícia que seu irmão mais velho, Bill, teve um acidente sério com sua scooter e estava em coma em um hospital correndo risco de vida.
Passada uma semana do acidente, Bill continuava não respondendo e Richard havia voltado para casa pois a família insistia que não havia nada a ser feito no momento e ele tinha uma certeza interna de que seu irmão iria melhorar. Mas o tempo foi passando e esse sentimento foi se dissolvendo, dando lugar a uma sensação de desconforto e um desejo de voltar ao hospital. Assim, contrariando os conselhos familiares, Richard decidiu que pegaria um avião para cidade onde seu irmão estava internado. Com essa decisão, sua mãe, que estava indo embora para casa, decidiu permanecer e buscá-lo no aeroporto. Nessas alturas, já fazia um mês que Bill estava internado.

A seguir, um trecho traduzido do texto de "Healing with Ki" de Richard Moon (extraído do livro "A Way to Reconcile the World, edição de Quentin Cooke) que narra a chegada de Richard ao quarto onde estava seu irmão:

"Havia um residente no quarto fazendo sua ronda. Depois de sermos introduzidos, ele gritou no ouvido de Bill: "Seu irmão Richard está aqui."
O que se perdia com isso? Nada.
Apenas uma enfermeira no quarto. Minha mãe estava lá e Christine, a amiga de meu irmão chegou. Enquanto ambas permaneciam na ponta da cama, eu me aproximei gradualmente. Eu pus minhas mãos nele, uma no pescoço e outra em seu rosto. Eu falei com ele e o chamei mas não houve resposta.
A palavra ki do aiki significa energia ou força vital. Em meus estudos de aikido, por causa da minha natureza e meus interesses, eu dei muita atenção ao processo de cura pelo ki. Eu participei de seminários e procurei informação e professores focados nisso.
A cura pelo ki é a prática do fluxo consciente de ki, ou energia vital, para um machucado a fim de estimular o processo de cura. Uma mãe beijando uma criança machucada é um exemplo de transferência de ki. Eu usei a cura pelo ki inúmeras vezes, mas nunca numa situação como essa. Apesar de cético das minhas próprias impressões a princípio, eu experimentei o fluxo de ki semelhante a uma substância dourada, tipo um mel. Mesmo com todos os meus anos de treino, eu me impressionei como era tangível a experiência.
Da mesma esfera misteriosa de consciência que levou-me aqui em primeiro lugar, eu me senti impelido a tomar a mão de Bill e aplicar uma técnica de aikido chamada nikyo, uma chave de punho. Nikyo tem o potencial de criar grande pressão a ponto de levar a uma dor intensa. Todas as técnicas de aikido podem remontar ao conflito marcial, mas a maneira como eu aplicava a técnica naquele momento era diferente.
Eu estaca enviando o fluxo de energia como um contato com o centro de seu ser. Nessa abordagem da arte, minha atenção estava sintonizada a sensação de ki ou fluxo de energia, eu continuava. Depois que um movimento que parecia que suas pálpebras se agitaram e seus olhos pareceram mover-se como se procurassem algo, eu perguntei: "Bill, Bill, voce pode me ouvir?"
Embora o som viesse do fundo de sua garganta e estivesse muito truncado, nada claro, eu posso jurar que ele disse : "Sim".
Eu admito que eu queria tanto escutá-lo dizer algo que eu não tive certeza. Eu temia tanto estar inventando isso, que eu reforcei o nikyo e deixei fluir ainda mais energia para ele. Seus olhos estavam definitivamente respondendo. Eu tinha certeza agora. Eu disse:
- Bill, quem sou eu?
Do fundo de sua garganta, eu um tom truncado e quase ininteligível, ele disse:
- ..ichard.
Eu olhei em volta do quarto. Os olhos da enfermeiras estavam arregalados. Minha mãe e Christine ainda permaneciam aos pés da cama. Estavam de mãos dadas e com um olhar maravilhado. Ambas assentiram com a cabeça.
Cristine disse:
- Eu tenho certeza que ele disse Richard. Eu tenho certeza que ele disse seu nome.
Voce teria que estar lá e escutar o quão inteligível foi sua fala para entender a twilight zone em que estávamos naquele momento.
De volta a Bill, eu apliquei novamente nikyo e perguntei:
- Bill, você sente isso?
Ele disse:
-Sim.
Cada vez que ele falava, as palavras pareciam estar cada vez mais claras. Eu disse:
- Bill, fale meu nome.
Quando ele disse "Richard" dessa vez, nós nos entreolhamos. Nós tínhamos medo de acreditar, e mesmo assim nos todos estávamos certos que o havíamos escutado falar. Eu aumentei ainda mais a pressão. Eu disse:
- Bill, se isso doer, diga "tio".
Numa voz truncada, mas mesmo assim, distinguível, ele disse:
- Tio!
Foi alto e claro. Nesse momento nenhum de nós questionou. Nos entreolhamos em lágrimas, risadas e sorrisos.
A enfermeira em choque, parou o que fazia. Ela olhou para mim com seus olhos imensos e me perguntou:
- O que você está fazendo?
Eu expliquei sobre meus interesses na arte do aikido como estudo da energia da vida. Eu disse para ela que era usado tanto como para autodefesa como para cura. Eu disse a ela que estava transferindo o ki  ou a energia vital que cura para o meu irmão e que estava usando esse processo para fazer contato com a consciência dele.
Ela olhou para mim com educação. Era como se pudesse ouvi-la pensando que um de nós devia estar louco, e como eu era da Califórnia, não havia questão que devia ser eu. Ao mesmo tempo, ela estava lá e ela o viu responder. Ela deixou o quarto repentinamente.
Minha mãe estava em lágrimas. Ela correu ao telefone para chamar Gene que estava terminando uma residência na Clínica Mayo em Rochester. Quando ela voltou, ela disse que ele conseguiu alguém para substituí-lo e que estava saindo imediatamente. Ele e sua esposa estariam em Twin Cities em algumas horas.
Em menos de cinco minutos uma bateria de médicos entrou no quarto. A enfermeira provavelmente disse alguma coisa que os trouxe tão rapidamente. Eles estiveram com Bill por mais de 4 semanas e não viram nenhuma resposta consciente. Andaram em volta dele. Cutucaram-no. Estimularam-no. Falaram com ele, sem respostas.
Nesse meio tempo, Bill tinha voltado ao seus estado inconsciente e não dava respostas. Eles não viram nada. Eu sentia que eles me olhavam com o canto dos olhos, então não disse nada. Olhando para mim, eles deixaram o quarto.
Assim que eles saíram, meu pai inesperadamente entrou no quarto. Ele não sabia que eu viria e se surpreendeu ao me encontrar ali. Ele esteve no hospital todos os dias desde o acidente. A fadiga em seu rosto era evidente. Ele disse que no dia anterior chegou ao fundo do poço. Ele disse que havia passado a noite em lágrimas, com medo que Bill nunca retornasse. Minha mãe o interrompeu:
- Jay, ela disse, Bill acaba de falar o nome de Richard.
Eu fui até a cama e peguei na mão de meu irmão novamente e apliquei o nikyo. Seus olhos começaram a rolar. Suas pálpebras começaram a se agitar e abrir. Parecia que ele olhava em torno do quarto.
- Bill, você sabe quem está no quarto agora?
Ele não respondeu imediatamente, então , eu perguntei novamente:
- Bill, quem está no quarto agora?
Em sua profunda, truncada e quase ininteligível voz, ele respondeu:
- Papai."

O texto é longo. Continuo depois. A história é linda e sobretudo é real.
A história inteira está em inglês nesse livro inspirador editado por Quentin Cook que recomendo:

http://quentincooke.tumblr.com/






13.7.15

"Lembrando, resolvendo e integrando memórias"

("Remembering, Resolving, and Integrating Memories" de John Luijten, 3º Dan, Gen Ki Aikido Yuishinkai, Holanda, extraído do livro "A Way to Reconcile the World, edição de Quentin Cooke)


"Eu tenho 48 anos, vivo no sul da Holanda e pratico Aikido há 23 anos. Já faz 7 anos que tenho meu próprio dojo onde ensino crianças, adolescentes e adultos.
Um dia, uma aluna me perguntou se estaria interessado em ensinar aikido aos pacientes de uma clínica para problemas de saúde mental, tais como depressão, trauma, stress, vícios, pânico e ansiedade.
Eu disse:
- Sim!
Os pacientes ficavam na clínica por aproximadamente 7 semanas, e o Aikido era uma das aulas que eles faziam para criar uma mente saudável em um corpo saudável. Eram divididos em quatro grupos com 10 a 15 pessoas. Duas vezes por mês eu dava aulas para dois grupo no sábado e dois grupos no domingo. Eu nunca sabia do que o paciente estava sendo tratado. No tempo limitado que eu tinha com eles, eu não esperava nada além de demonstrar o quão relaxados e positivos o treino poderia faze-los se sentir e abrir uma porta aos pacientes ao mundo do Aikido assim que seu tratamento terminasse.
Nas aulas praticamos exercícios de ki, princípios do aikido e hambo kata (exercícios com bastão médio).
Durante uma dessas aulas quando eu estava ensinando o kata, uma paciente começou a chorar e saiu da sala. Depois da aula, ela voltou e me contou a razão de sua explosão emocional.
Anos atrás quando ela trabalhava na Africa fazendo um trabalho missionário, ela testemunhou a morte de um homem por pauladas. Ela bloqueou esse evento em sua mente, não falando ou sequer pensando sobre ele até a aula com o hambo trazer o evento de volta a ela. Ela se surpreendeu com o acontecido, pois ela não se dava conta do problema, embora sua reação tenha provado o contrário. Como resultado, ela falou com o incidente a seus terapeutas e juntos, ela conseguiu processar e lidar com essa lembrança há muito tempo enterrada na memória.
Depois de duas semanas ela me pediu para fazer novamente o kata. Dessa vez ela permaneceu e terminou o kata, assim como a aula toda. Ela estava muito feliz pois para ela isso assinalava que ela finalmente chegou a um acordo com seu terrível trauma.
Nunca lhe havia ocorrido que esse evento, na verdade, a estava afetando profundamente sua vida desde aquele tempo, e no entanto, este exercício simples pode abrir uma janela para seu subconsciente, o que permitiu a ela retomar o trilho. Foi muito bonito ver o alívio e alegria em seu rosto, e para mim foi um exemplo maravilhoso do porquê escolhi ensinar essa maravilhosa arte.
Como disse o fundador: "A verdadeira vitória é a vitória sobre si mesmo, masakatsu agastu."



3.7.15

"Vá em frente, chute-me"

(Go Ahead, Kick Me de Tara Dalton, 11 anos, Aikido of Santa Cruz, EUA - extraido do livro "A Way to Reconcile the World, edição de Quentin Cooke)


"No verão passado nós fomos com meus primos Ben e Marrisa para a cabana de nossos avós em Lake Tahoe. Nós estivemos brincando juntos muito bem até que um dia quando estávamos lá fora, Ben falou para meu irmão Tola:
- Aposto que você não pode me chutar.
Tola respondeu:
- Eu não quero te chutar.

Mas Ben disse:
- É porque você não pode.
Tola não via as coisas daquela maneira. Ele disse:
- Eu não quero te chutar porque você é meu primo e eu não quero te machucar. Além disso, estamos de férias. Nós deveríamos estar nos divertindo e não brigando.
Ben disse:
- Vá em frente, chute-me. Chute-me enquanto eu estiver de olhos fechados.
Ele virou as costas e fechou os olhos.
Nós decidimos que não havia mais nada a ser dito que pudesse convence-lo, então fomos para dentro fazer aviõezinhos de papel. Um pouco depois, Ben pensou e entrou para fazer aviõezinhos também."
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2.7.15

"Tarde da noite"

(Late One Night de David Gross, extraído do livro "A Way to Reconcile the World", organização de Quentin Cooke)

"Era tarde da noite e eu estava voltando para casa em uma calçada larga, bem iluminada e deserta que passava em frente a uma concessionária da Chevy. Vindo na minha direção estavam dois sujeitos e embora eles estivessem fora do meu caminho, eles davam a impressão de estarem bêbados pela maneira como seus ombros e cotovelos se mexiam conforme caminhavam. Eles pareciam estar procurando encrenca pelo jeito com que batiam e chutavam os carros e caminhões a medida que passavam.
Eles estavam do lado direito da calçada quando se aproximaram de mim. Eu me movi para a esquerda, na esperança de que o espaço de uns dois metros seria uma proteção para mim. A medida que se aproximavam, um dos caras me abordou. Ele levantou a mão para me atacar. Meu treinamento de aikido estava em mim. Àquela altura, mesmo com toda a tensão no ar, eu não me encolhi nem me tornei agressivo.
A mão dele desceu na direção da minha cabeça, eu a alcancei e o cumprimentei. Ele meio que pulou.
"Oh, como vai?" ele deixou escapar.
Nos trocamos comprimentos e continuamos em nossos respectivos caminhos.
Esse foi o melhor do meu aikido. Eu não reagi ao extremo. Eu não antecipei ou tentei forçar a situação. A violência foi dissolvida de forma segura. Aconteceu sem eu planejar ou pensar. Meu coração em minha garganta e o seu batido alto em meus ouvidos até chegar em casa."

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Mindfulness : novidade do Tatamito

O mundo ai fora nos desafia constantemente. Indignação, raiva, pensamentos obsessivos, medo, desânimo... Descubra formas de tornar-se mais pro-ativo, vivendo a partir de ações construtivas e afirmando pensamentos positivos. 

Cuidar-se é a primeira forma de colaborar para um mundo melhor.

Mindfulness te oferece boas ferramentas. Vem conhecer. 
É na próxima segunda mas já pode se inscrever agora.



Workshop de Mindfulness
Com Milca Ribeiro
06 de Julho / 20h00 às 21h30
R$50,00
Saiba mais: tatamito.com


28.4.15

Os linfócitos, as metáforas e o aikido corpo-ki

Em tempos de mudanças de temperatura, pelo menos aqui em São Paulo, as drogarias lotam de pessoas alérgicas e/ou gripadas com muito mais frequência. Isso me fez pensar ultimamente sobre o nosso sistema imunológico.

Aqueles que estudaram biologia no século XX devem se lembrar de ter aprendido que os linfócitos, também conhecidos como glóbulos brancos, eram os "soldadinhos" do corpo. 

No entanto, em 1994, Francisco Varela e Mark Anspach*, ao atentarem para a característica de diferenciação dos linfócitos entre si, concluíram que  os anticorpos  produzidos  pelos linfócitos formam o grupo molecular mais diversificado do corpo. Os linfócitos são qualificados para garantir a constante mudança e a diversidade de outras moléculas. Circulando no organismo, os linfócitos podem encontrar tanto com moléculas de tecido orgânico (self) como com antígenos (não-self), ou seja,  têm uma função de reconhecimento. Os autores descobriram que a constante troca nos linfócitos envolve um processo ativo que inclui aprendizagem e memória. Assim, o sistema imunológico além da função defensiva, apresenta capacidade cognitiva inegável. Esta mudança de metáforas - do exército para a de rede inteligente com habilidade cognitiva  nos faz concluir: pensamos e aprendemos com o corpo todo e não apenas com o cérebro e o sistema nervoso.

Francisco Varela (1946-2001) encontrando com o 14º Dalai Lama

O entendimento desta nova metáfora, reforça portanto, as teorias do corpo integrado  a que se refere a filosofia oriental (em contraponto ao corpo em partes do pensamento predominante ocidental, o corpo tratado pelas especialidades médicas específicas) e da íntima relação entre doença/aprendizado.

Já que falamos em metáforas, é interessante pontuar que para alguns pesquisadores - Lakoff e Johnson, Metaphors we live by, 1980 - todo nosso sistema conceitual é metafórico. Estruturamos uma experiência a partir de outra - as chamadas metáforas estruturais. A própria etimologia da palavra - que vem do grego - μεταφορά - transporte ou transferência, ou seja, com o uso de metáforas acontece um transporte de pensamentos.  Para uma a metáfora servir como veiculo para o entendimento é necessária a experiência corporal prática, o que a torna uma metáfora incorporada (embodied cognition).  A cognição é uma atividade dinâmica sensório-motora e portanto, experimentada não apenas pela atividade neural, mas emerge das atividades do corpo do indivíduo.

O aprendizado do Aikido Corpo-Ki - arte marcial e portanto corporal - promove uma experiência prática corporal que se vale da metáfora ataque/defesa para estimular a incorporação do estado de harmonia interior do indivíduo. Embora tenha se desenvolvido muito antes de tais teorias, o Aikido Corpo-Ki se vale da premissa da embodied cognition, ou seja, metáforas em práticas pelo corpo são incorporadas à mente e consequentemente, às atitudes do indivíduo.

Aqui voltamos à metáfora militar, uma vez que o Aikido foi desenvolvido a partir dos princípios do budô, as artes marciais ensinadas com o objetivo de defesa militar. Mas o Aikido Corpo-Ki não pretende que esta ideia seja levada ao pé da letra. A prática procura criar uma tensão para que esta seja superada, não apenas na realidade do tatame, mas na realidade do indivíduo. Muitas pessoas confundem essa proposta, imaginando que o principal "efeito" do Aikido Corpo-Ki em suas vidas seria a capacidade de se defenderem no caso de um assalto, por exemplo. Muito além de ser literal, o Aikido Corpo-Ki nos prepara para outros tipos de ataques, situações agressivas com as quais nos deparamos no nosso dia-a-dia, que podem surgir desde um singelo telefonema a um trânsito tenso. Paulistanos sabem bem sobre esse tipo de experiência...

Assim como os linfócitos nos ajudam a aprender sobre aquilo que é estranho e perigoso para nós, as práticas do Aikido Corpo-Ki nos preparam para estarmos alertas para aquilo que nos é potencialmente agressivo, seja vindo de fora, mas sobretudo vindo de nós mesmos. 


*fonte: GREINER, C. O Corpo. Pistas para estudos indisciplinares

14.4.15

A naturalidade do Kamae

Eu tenho um hábito que pode parecer engraçado. Quase sempre que ando de metrô, gosto de testar minha base, meu equilíbrio e ontem, particularmente, notei uma coisa muito curiosa.

Eu me coloquei em kamae - também conhecido como hanmi - a postura do Aikido em que nossos pés se posicionam triangularmente. Fiquei assim, jogando meu peso para meus quadris/joelhos flexionados e pés sem encostar em nada e testando como eu lidava com o movimento do metrô.

um aluno do Tatamito em kamae

detalhe do posicionamento dos pés no Kamae 

Daí, comecei a reparar nas outras pessoas. A maioria se apoiava em seus braços/mãos, se dependurando nas barras de metal. Mas havia 2 pessoas como eu: sem usar o apoio superior do corpo.

Era um homem e uma mulher. Quando comecei a observá-los notei que ambos tinham os pés paralelos e voltando a frente do corpo perpendicularmente ao movimento do trem . Mas depois de um tempo, notei que a mulher, que estava mais próxima de mim, começou a mexer os pés. Primeiro ela deixou de ficar de lado em direção ao movimento do trem para se colocar junto ao movimento. Colocou assim, um pé na frente do outro. Achei curioso e fiquei observando como ela foi adaptando a posição dos pés e voilá: colocou-se naturalmente em kamae!
O outro manteve-se o tempo todo com a frente do corpo perpendicularmente ao movimento do trem, com os pés em uma unica linha paralela e bastante cambaleante durante o percurso.

Para mim, isso é uma evidência que os ensinamentos do Aikido podem ser postos em prática em nossas vidas e fazem muito sentido. Esse é um exemplo de um sentido físico, mas existem também todas as correlações possíveis nos aspectos de relacionamentos interpessoais - para citar apenas um exemplo - das aplicações do Aikido Corpo-Ki no cotidiano que procuramos explorar aqui no Tatamito.

à esquerda, o passageiro com os pés paralelos, e à direita, a passageira buscando o kamae (ela achou: o pé de trás ficou mais virado para fora mas eu não consegui tirar a foto discretamente....)





2.4.15

Workshop Arte como Caminho 14/4



"Sinto que meus corpos estão em harmonia e sinto que isso tem ajudado a desenroscar questões que antes pareciam impossíveis de serem resolvidas. Tenho sentido mais leveza na vida."(depoimento de aluno do curso Arte como Caminho)*

Arte como Caminho : workshop

QUANDO
Terça, 14 de abril, das 19:30 as 21:30

O QUE É:
Workshop voltado para pessoas interessadas na integração corpo/mente.
Dô em japonês quer dizer caminho: Aikido (Caminho da Harmonia), Judo (Suave Caminho), Shodo (Caminho da Escrita) e por ai vai.... A ideia de caminho permeia a cultura oriental e indica sobretudo que a vida é um caminho, um processo que se desenrola.


O QUE VOCÊ VAI FAZER
Durante o workshop vamos fazer exercícios de práticas físicas individuais e em duplas para experimentar a percepção de ki (que muita gente já ouviu falar e nunca sentiu!) e sua relação com o corpo em movimento, para então passar aos exercícios artísticos tecendo correlações corpo do artista/pincel, sem preocupações com o resultado, mas focando na consciência ao longo do processo (não vamos buscar a perfeição, vamos buscar a meditação ativa que a arte proporciona).


COMO SERÁ
O grupo será pequeno para permitir um trabalho de intensidade e ao mesmo tempo relaxante.
A duração do workshop é de 2 horas. Não há pre-requisitos para participar. Os materiais serão fornecidos.
Venha vestido(a) com roupas confortáveis.

COM QUEM
Mirla Fernandes: mestra em Poéticas Visuais (2013,Unicamp) com um trabalho focado na relação objeto/corpo cognitivo, exibido internacionalmente desde 1998 através de exposições, workshops e palestras. Pesquisa o ki desde 2002, pelo Reiki e desde 2004, pelo Aikido e mais recentemente pelo Kinomichi. É instrutora de Aikido (2012, shodan Aikikai, Japão) do Tatamito e da St Paul’s School.


COMO SE INSCREVER
Para se inscrever é preciso enviar um email e fazer um depósito no valor de R$50,00.
Entre em contato: tatamitodojo@gmail.com // whataspp 982906651
Política de Cancelamento: como trata-se de um curso com pouquíssimas vagas, após a inscrição não serão aceitos cancelamentos.


DÚVIDAS
Conheça mais sobre o Tatamito: espaço multi territórios de transformação pessoal
www.tatamito.com
Entre em contato: tatamitodojo@gmail.com // whataspp 982906651


*Arte como Caminho é também um curso que acontece regularmente no Tatamito todas as quintas feiras das 19h30 às 21h00. A partir desse workshop será possível inscrever-se no curso em nova turma com horário a ser definido em conjunto

30.3.15

A história de Morihei II

Muitos de nós, em algum ponto de nossas vidas, sentimos uma insatisfação com algo de nossos corpos. O que é um insignificante detalhe para o outro, para nós torna-se fonte de desgosto e infelicidade, o que era pequeno, torna-se grande.

Morihei Ueshiba, conhecido como O Sensei - literalmente grande mestre - ironicamente era pequeno, um homem de estatuta baixa e muito insatisfeito com isso em uma certa altura de sua vida.


detalhe de gravura de Shigeo Nishimura ilustrando recrutamento na Era Meiji
Leia um trecho interessante da biografia de Morihei Ueshiba (1883-1969), o criador do Aikido que toca nesse aspecto:

"Em 1904, estoura a guerra entre Russia e Japão e Morihei tenta alistar-se no exército, mas é recusado pois não tinha a altura mínima requerida: 1,52 m. Essa rejeição o deixa furioso e ele então decide ir para as montanhas, treinar vigorosamente, até mesmo se dependurando em árvores por horas na tentativa de aumentar sua altura. 
Em sua segunda tentativa de alistamento, consegue ser aceito como reserva e seu grande empenho e habilidades com a espada e a baioneta logo foram notados, sendo promovido rapidamente a sargento. Porem foram essas mesmas habilidades que o privaram de ir para o campo de batalha - contra sua vontade, por sinal - pois ele foi considerado um professor muito valioso para os outros soldados para arriscar ser perdido.  

Morihei continuou insistindo e após muitos pedidos ele foi à linha de frente onde surpreendeu seus camaradas correndo diretamente ao ataque. Morihei afirmava que quando estava perto o suficiente conseguia ver um flash de luz, como uma trilha das balas antes que elas o alcançassem. Este foi um dos primeiros dos muitos relatos das habilidades extra-sensoriais de Morihei.  

Sua bravura nos campos de batalha fizeram-no ser chamado de o 'soldado de ouro'. Quando a guerra acabou, em 1905, ofereceram a Ueshiba a oportunidade de entrar numa prestigiada escola para oficiais, a qual optou por declinar em função de um pedido de seu pai para que voltasse para casa. "*

Revista O Malho #94, 1904

* tradução livre do livro de William Gleason, The Spiritual Foundations of Aikido.

26.3.15

Olhos, corpo e mente




Já comentei  um pouco das ideias da medicina chinesa sobre o fígado. Na visão dos cinco elementos, os olhos estão ligados ao fígado e ao elemento madeira. A sintonia se reflete na ideia de imaginar/projetar/planejar ou seja, criar, que ressoa com a energia da primavera e do elemento madeira. Assim, a visão é não apenas o ato de enxergar, mas projetar e, os olhos, seus orgãos, são afetados quando existem desequilíbrios nesse sistema. (leia mais)

Os orientais perceberam essa interessante relação há muito tempo, mas existem ocidentais que também o fizeram mais recentemente. Reproduzo aqui as palavras do incrível Meir Schneider (que nasceu cego e com exercícios e muita disciplina, recuperou muito da visão):

"Todos fomos educados para crer que nossos olhos - ao contrário da maioria das outras partes do corpo - podem apenas mudar para pior, e nunca podem melhorar se começaram a deteriorar-se. É fácil pensar assim, porque de fato, a maiorida das pessoas com problemas de visão apenas tende a piorar. Isto, entretanto, acontece apenas porque elas não sabem como melhorar sua visão.Ninguem pode ser culpado disso. A melhora da visão é um processo complexo. Nossos olhos - e nossas habilidades visuais - estão intrincadamente ligados com nossos corpos, nossas mentes e nossas emoções. Nossos olhos agem sobre cada aspecto de nossa vida; trabalhar para melhorar a visão é portanto um desafio. Nesse processo você pode dar de cara com tensões físicas* profundamente enraizadas, resistência mental, bloqueios emocionais e traumas. No entanto, ao encarar essas dificuldades, muitas pessoas não só superaram seus problemas visuais, como mudaram suas vidas".

*mais uma correlação músculos/olhos que ressoa com a medicina chinesa

24.3.15

A história de Morihei I

Acho particularmente interessante alguns trechos da vida do criador do Aikido, Morihei Ueshiba (1883-1969). Vou postando alguns parágrafos. Este é do livro de William Gleason, The Spiritual Foundations of Aikido - tradução minha:

"Era um estudante brilhante, interessava-se avidamente pela matemática e física. Ao terminar a escola secundária, matriculou-se numa academia de ábaco de excelente reputação e em um ano tornou-se assistente do instrutor da escola. Depois de sua graduação, Morihei conseguiu um trabalho no escritório local da administração fiscal. Ele tinha uma mente rápida e uma excepcional habilidade com números e rapidamente foi promovido a superintendente.
Sua consciência social já era evidente desde cedo. Quando tinha 19 anos, uma nova lei foi imposta aos pescadores, favorecendo as grandes frotas comerciais de pescaria e impondo dificuldades aos donos de pequenos barcos pescadores.  Morihei e os pescadores manifestaram-se contra a lei naquilo que ficou conhecido como o Incidente Iso. Isto terminou sua carreira na administração fiscal. Sem emprego, mas ainda um sonhador, ele dirigiu-se ao norte para Tokio para tentar a sorte, estabelecendo a Companhia Ueshiba, que tornou-se uma grande papelaria. Nesse meio tempo , tornou-se interessado nas artes marciais e estudou tanto o antigo jujutsu (koryu) quanto o estilo shinkage de espada. Mais tarde, ficou doente e foi forçado a retornar a Tanabe, deixando seus negócios com seus empregados. Chegando em casa disse a seu pai, "Bem, eu sai de mãos vazias e retorno de mãos vazias". 


20.3.15

Workshop Arte como Caminho : inscreva-se!

No último sábado de março proponho um workshop de 2 horas de duração baseado no curso Arte como Caminho.
Este curso vem acontecendo às quintas a noite com apenas 4 pessoas, o que garante um trabalho bastante específico e intenso (veja algumas imagens abaixo).


Para se inscrever no workshop, acesse o link do Cinese:
http://www.cinese.me/encontros/arte-como-caminho-workshop


Arte como Caminho

18.3.15

Caminho da Harmonia

As vezes a gente cisma de abrir um livro em uma página qualquer e se surpreende com palavras inspiradoras, que compartilho aqui:



"O Caminho da harmonia não é um caminho fácil. A verdade não iluminará um espírito preguiçoso. É um Caminho áspero, marcado pelo trabalho, pelo suor e pelas dores da realidade, pois o conflito tem de ser experimentado e compreendido. A experiência física do conflito é exigente e frustrante - mas a frustração maior, a exigência mais exaustiva para o espírito é a luta para subjugar o ego quando se aspira ao auto-aperfeiçoamento e, em última análise, ao bem da sociedade. Entretanto é também um Caminho animado pela intensidade do desafio, pois o espírito se torna fértil com as alegrias da evolução." (SAOTOME, 1993:76)



Mitsuge Saotome Shihan

17.3.15

Arte como Caminho



aula de Arte como Caminho

em japonês quer dizer caminho: Aikido (Caminho da Harmonia),  Judo (Suave Caminho), Shodo (Caminho da Escrita) e por ai vai.... A ideia de caminho permeia a cultura oriental e indica sobretudo que a vida é um caminho, um processo que se desenrola e no qual vale a pena buscar a consciência para poder evoluir. 
“A arte do dô, de forma similar ao santuário, em vez de valorizar a consequência, lança luz sobre o “modo pelo qual” se efetiva uma ação, sobre a montagem processual para alcançar ou conquistar uma determinada habilidade artística com a busca de uma espiritualidade mais elevada”*
 
É com essa mentalidade, de enfoque no caminho que proponho o curso "Arte como Caminho", uma proposta derivada de minhas próprias pesquisas artísticas que vêm sendo contaminadas pelo pensamento oriental há muito tempo.


Funakogi Undo, 2013, nanquim sobre papel



Voltado para pessoas interessadas na ampliação do estado de concentração e autoconsciência, propomos exercícios de práticas físicas (individuais e em duplas) e artísticas, que levam a uma percepção do ki ampliada, sua relação com o corpo em movimento e sua relação com o estabelecimento de uma condição de centramento e predisposição à harmonia.


As aulas tem a duração de 1h30, sendo que os primeiros 50 minutos são dedicados às práticas físicas, só então os alunos passam as práticas artísticas com pincel japonês. Durante ambas as práticas traçamos correlações entre os movimentos do corpo no encontro com o outro e na relação pincel/papel.


'Anatomia' do pincel fude




Aulas semanais para grupos de no máximo 4 pessoas
 Reservas e mais informações sobre horários por email
ou telefone/whatsapp: 98290 66561

*(in Okano, Michiko. Prefácio. in Dô – Caminho da Arte: do belo do Japão ao Brasil. Org. Cecilia Kimie Jo Shioda, Eunice Vaz Yoshiura, Neide Hissae Nagae. São Paulo: Unesp, 2013).

2.3.15

Aikido Corpo-Ki Pais & Filhos

Introduzir os princípios  de harmonia e colaboração aos seus fllhos e ao mesmo tempo proporcionar um momento de descobertas entre vocês. Agora o Tatamito oferece duas turmas de Aikido Corpo & Ki para Pais & Filhos, claro que incluindo mães e filhas na equação!

AIKIDO CORPO-KI PAIS & FILHOS
Sábados: das 9h00 às 10h00 e das 10h00 às 11h00
Para se inscrever na aula experimental: tatamitodojo@gmail.com ou whatsapp 98290 6651

AIKIDO CORPO-KI FAMíLIA
A oportunidade de usufruir de uma hora de atividades tão profundas e ao mesmo tempo divertidas em família pode acontecer na sua casa caso haja  espaço suficiente para montar um pequeno tatame. Contacte-me para saber mais