14.4.15

A naturalidade do Kamae

Eu tenho um hábito que pode parecer engraçado. Quase sempre que ando de metrô, gosto de testar minha base, meu equilíbrio e ontem, particularmente, notei uma coisa muito curiosa.

Eu me coloquei em kamae - também conhecido como hanmi - a postura do Aikido em que nossos pés se posicionam triangularmente. Fiquei assim, jogando meu peso para meus quadris/joelhos flexionados e pés sem encostar em nada e testando como eu lidava com o movimento do metrô.

um aluno do Tatamito em kamae

detalhe do posicionamento dos pés no Kamae 

Daí, comecei a reparar nas outras pessoas. A maioria se apoiava em seus braços/mãos, se dependurando nas barras de metal. Mas havia 2 pessoas como eu: sem usar o apoio superior do corpo.

Era um homem e uma mulher. Quando comecei a observá-los notei que ambos tinham os pés paralelos e voltando a frente do corpo perpendicularmente ao movimento do trem . Mas depois de um tempo, notei que a mulher, que estava mais próxima de mim, começou a mexer os pés. Primeiro ela deixou de ficar de lado em direção ao movimento do trem para se colocar junto ao movimento. Colocou assim, um pé na frente do outro. Achei curioso e fiquei observando como ela foi adaptando a posição dos pés e voilá: colocou-se naturalmente em kamae!
O outro manteve-se o tempo todo com a frente do corpo perpendicularmente ao movimento do trem, com os pés em uma unica linha paralela e bastante cambaleante durante o percurso.

Para mim, isso é uma evidência que os ensinamentos do Aikido podem ser postos em prática em nossas vidas e fazem muito sentido. Esse é um exemplo de um sentido físico, mas existem também todas as correlações possíveis nos aspectos de relacionamentos interpessoais - para citar apenas um exemplo - das aplicações do Aikido Corpo-Ki no cotidiano que procuramos explorar aqui no Tatamito.

à esquerda, o passageiro com os pés paralelos, e à direita, a passageira buscando o kamae (ela achou: o pé de trás ficou mais virado para fora mas eu não consegui tirar a foto discretamente....)





2.4.15

Workshop Arte como Caminho 14/4



"Sinto que meus corpos estão em harmonia e sinto que isso tem ajudado a desenroscar questões que antes pareciam impossíveis de serem resolvidas. Tenho sentido mais leveza na vida."(depoimento de aluno do curso Arte como Caminho)*

Arte como Caminho : workshop

QUANDO
Terça, 14 de abril, das 19:30 as 21:30

O QUE É:
Workshop voltado para pessoas interessadas na integração corpo/mente.
Dô em japonês quer dizer caminho: Aikido (Caminho da Harmonia), Judo (Suave Caminho), Shodo (Caminho da Escrita) e por ai vai.... A ideia de caminho permeia a cultura oriental e indica sobretudo que a vida é um caminho, um processo que se desenrola.


O QUE VOCÊ VAI FAZER
Durante o workshop vamos fazer exercícios de práticas físicas individuais e em duplas para experimentar a percepção de ki (que muita gente já ouviu falar e nunca sentiu!) e sua relação com o corpo em movimento, para então passar aos exercícios artísticos tecendo correlações corpo do artista/pincel, sem preocupações com o resultado, mas focando na consciência ao longo do processo (não vamos buscar a perfeição, vamos buscar a meditação ativa que a arte proporciona).


COMO SERÁ
O grupo será pequeno para permitir um trabalho de intensidade e ao mesmo tempo relaxante.
A duração do workshop é de 2 horas. Não há pre-requisitos para participar. Os materiais serão fornecidos.
Venha vestido(a) com roupas confortáveis.

COM QUEM
Mirla Fernandes: mestra em Poéticas Visuais (2013,Unicamp) com um trabalho focado na relação objeto/corpo cognitivo, exibido internacionalmente desde 1998 através de exposições, workshops e palestras. Pesquisa o ki desde 2002, pelo Reiki e desde 2004, pelo Aikido e mais recentemente pelo Kinomichi. É instrutora de Aikido (2012, shodan Aikikai, Japão) do Tatamito e da St Paul’s School.


COMO SE INSCREVER
Para se inscrever é preciso enviar um email e fazer um depósito no valor de R$50,00.
Entre em contato: tatamitodojo@gmail.com // whataspp 982906651
Política de Cancelamento: como trata-se de um curso com pouquíssimas vagas, após a inscrição não serão aceitos cancelamentos.


DÚVIDAS
Conheça mais sobre o Tatamito: espaço multi territórios de transformação pessoal
www.tatamito.com
Entre em contato: tatamitodojo@gmail.com // whataspp 982906651


*Arte como Caminho é também um curso que acontece regularmente no Tatamito todas as quintas feiras das 19h30 às 21h00. A partir desse workshop será possível inscrever-se no curso em nova turma com horário a ser definido em conjunto

30.3.15

A história de Morihei II

Muitos de nós, em algum ponto de nossas vidas, sentimos uma insatisfação com algo de nossos corpos. O que é um insignificante detalhe para o outro, para nós torna-se fonte de desgosto e infelicidade, o que era pequeno, torna-se grande.

Morihei Ueshiba, conhecido como O Sensei - literalmente grande mestre - ironicamente era pequeno, um homem de estatuta baixa e muito insatisfeito com isso em uma certa altura de sua vida.


detalhe de gravura de Shigeo Nishimura ilustrando recrutamento na Era Meiji
Leia um trecho interessante da biografia de Morihei Ueshiba (1883-1969), o criador do Aikido que toca nesse aspecto:

"Em 1904, estoura a guerra entre Russia e Japão e Morihei tenta alistar-se no exército, mas é recusado pois não tinha a altura mínima requerida: 1,52 m. Essa rejeição o deixa furioso e ele então decide ir para as montanhas, treinar vigorosamente, até mesmo se dependurando em árvores por horas na tentativa de aumentar sua altura. 
Em sua segunda tentativa de alistamento, consegue ser aceito como reserva e seu grande empenho e habilidades com a espada e a baioneta logo foram notados, sendo promovido rapidamente a sargento. Porem foram essas mesmas habilidades que o privaram de ir para o campo de batalha - contra sua vontade, por sinal - pois ele foi considerado um professor muito valioso para os outros soldados para arriscar ser perdido.  

Morihei continuou insistindo e após muitos pedidos ele foi à linha de frente onde surpreendeu seus camaradas correndo diretamente ao ataque. Morihei afirmava que quando estava perto o suficiente conseguia ver um flash de luz, como uma trilha das balas antes que elas o alcançassem. Este foi um dos primeiros dos muitos relatos das habilidades extra-sensoriais de Morihei.  

Sua bravura nos campos de batalha fizeram-no ser chamado de o 'soldado de ouro'. Quando a guerra acabou, em 1905, ofereceram a Ueshiba a oportunidade de entrar numa prestigiada escola para oficiais, a qual optou por declinar em função de um pedido de seu pai para que voltasse para casa. "*

Revista O Malho #94, 1904

* tradução livre do livro de William Gleason, The Spiritual Foundations of Aikido.

26.3.15

Olhos, corpo e mente




Já comentei  um pouco das ideias da medicina chinesa sobre o fígado. Na visão dos cinco elementos, os olhos estão ligados ao fígado e ao elemento madeira. A sintonia se reflete na ideia de imaginar/projetar/planejar ou seja, criar, que ressoa com a energia da primavera e do elemento madeira. Assim, a visão é não apenas o ato de enxergar, mas projetar e, os olhos, seus orgãos, são afetados quando existem desequilíbrios nesse sistema. (leia mais)

Os orientais perceberam essa interessante relação há muito tempo, mas existem ocidentais que também o fizeram mais recentemente. Reproduzo aqui as palavras do incrível Meir Schneider (que nasceu cego e com exercícios e muita disciplina, recuperou muito da visão):

"Todos fomos educados para crer que nossos olhos - ao contrário da maioria das outras partes do corpo - podem apenas mudar para pior, e nunca podem melhorar se começaram a deteriorar-se. É fácil pensar assim, porque de fato, a maiorida das pessoas com problemas de visão apenas tende a piorar. Isto, entretanto, acontece apenas porque elas não sabem como melhorar sua visão.Ninguem pode ser culpado disso. A melhora da visão é um processo complexo. Nossos olhos - e nossas habilidades visuais - estão intrincadamente ligados com nossos corpos, nossas mentes e nossas emoções. Nossos olhos agem sobre cada aspecto de nossa vida; trabalhar para melhorar a visão é portanto um desafio. Nesse processo você pode dar de cara com tensões físicas* profundamente enraizadas, resistência mental, bloqueios emocionais e traumas. No entanto, ao encarar essas dificuldades, muitas pessoas não só superaram seus problemas visuais, como mudaram suas vidas".

*mais uma correlação músculos/olhos que ressoa com a medicina chinesa

24.3.15

A história de Morihei I

Acho particularmente interessante alguns trechos da vida do criador do Aikido, Morihei Ueshiba (1883-1969). Vou postando alguns parágrafos. Este é do livro de William Gleason, The Spiritual Foundations of Aikido - tradução minha:

"Era um estudante brilhante, interessava-se avidamente pela matemática e física. Ao terminar a escola secundária, matriculou-se numa academia de ábaco de excelente reputação e em um ano tornou-se assistente do instrutor da escola. Depois de sua graduação, Morihei conseguiu um trabalho no escritório local da administração fiscal. Ele tinha uma mente rápida e uma excepcional habilidade com números e rapidamente foi promovido a superintendente.
Sua consciência social já era evidente desde cedo. Quando tinha 19 anos, uma nova lei foi imposta aos pescadores, favorecendo as grandes frotas comerciais de pescaria e impondo dificuldades aos donos de pequenos barcos pescadores.  Morihei e os pescadores manifestaram-se contra a lei naquilo que ficou conhecido como o Incidente Iso. Isto terminou sua carreira na administração fiscal. Sem emprego, mas ainda um sonhador, ele dirigiu-se ao norte para Tokio para tentar a sorte, estabelecendo a Companhia Ueshiba, que tornou-se uma grande papelaria. Nesse meio tempo , tornou-se interessado nas artes marciais e estudou tanto o antigo jujutsu (koryu) quanto o estilo shinkage de espada. Mais tarde, ficou doente e foi forçado a retornar a Tanabe, deixando seus negócios com seus empregados. Chegando em casa disse a seu pai, "Bem, eu sai de mãos vazias e retorno de mãos vazias". 


20.3.15

Workshop Arte como Caminho : inscreva-se!

No último sábado de março proponho um workshop de 2 horas de duração baseado no curso Arte como Caminho.
Este curso vem acontecendo às quintas a noite com apenas 4 pessoas, o que garante um trabalho bastante específico e intenso (veja algumas imagens abaixo).


Para se inscrever no workshop, acesse o link do Cinese:
http://www.cinese.me/encontros/arte-como-caminho-workshop


Arte como Caminho

18.3.15

Caminho da Harmonia

As vezes a gente cisma de abrir um livro em uma página qualquer e se surpreende com palavras inspiradoras, que compartilho aqui:



"O Caminho da harmonia não é um caminho fácil. A verdade não iluminará um espírito preguiçoso. É um Caminho áspero, marcado pelo trabalho, pelo suor e pelas dores da realidade, pois o conflito tem de ser experimentado e compreendido. A experiência física do conflito é exigente e frustrante - mas a frustração maior, a exigência mais exaustiva para o espírito é a luta para subjugar o ego quando se aspira ao auto-aperfeiçoamento e, em última análise, ao bem da sociedade. Entretanto é também um Caminho animado pela intensidade do desafio, pois o espírito se torna fértil com as alegrias da evolução." (SAOTOME, 1993:76)



Mitsuge Saotome Shihan

17.3.15

Arte como Caminho



aula de Arte como Caminho

em japonês quer dizer caminho: Aikido (Caminho da Harmonia),  Judo (Suave Caminho), Shodo (Caminho da Escrita) e por ai vai.... A ideia de caminho permeia a cultura oriental e indica sobretudo que a vida é um caminho, um processo que se desenrola e no qual vale a pena buscar a consciência para poder evoluir. 
“A arte do dô, de forma similar ao santuário, em vez de valorizar a consequência, lança luz sobre o “modo pelo qual” se efetiva uma ação, sobre a montagem processual para alcançar ou conquistar uma determinada habilidade artística com a busca de uma espiritualidade mais elevada”*
 
É com essa mentalidade, de enfoque no caminho que proponho o curso "Arte como Caminho", uma proposta derivada de minhas próprias pesquisas artísticas que vêm sendo contaminadas pelo pensamento oriental há muito tempo.


Funakogi Undo, 2013, nanquim sobre papel



Voltado para pessoas interessadas na ampliação do estado de concentração e autoconsciência, propomos exercícios de práticas físicas (individuais e em duplas) e artísticas, que levam a uma percepção do ki ampliada, sua relação com o corpo em movimento e sua relação com o estabelecimento de uma condição de centramento e predisposição à harmonia.


As aulas tem a duração de 1h30, sendo que os primeiros 50 minutos são dedicados às práticas físicas, só então os alunos passam as práticas artísticas com pincel japonês. Durante ambas as práticas traçamos correlações entre os movimentos do corpo no encontro com o outro e na relação pincel/papel.


'Anatomia' do pincel fude




Aulas semanais para grupos de no máximo 4 pessoas
 Reservas e mais informações sobre horários por email
ou telefone/whatsapp: 98290 66561

*(in Okano, Michiko. Prefácio. in Dô – Caminho da Arte: do belo do Japão ao Brasil. Org. Cecilia Kimie Jo Shioda, Eunice Vaz Yoshiura, Neide Hissae Nagae. São Paulo: Unesp, 2013).

2.3.15

Aikido Corpo-Ki Pais & Filhos

Introduzir os princípios  de harmonia e colaboração aos seus fllhos e ao mesmo tempo proporcionar um momento de descobertas entre vocês. Agora o Tatamito oferece duas turmas de Aikido Corpo & Ki para Pais & Filhos, claro que incluindo mães e filhas na equação!

AIKIDO CORPO-KI PAIS & FILHOS
Sábados: das 9h00 às 10h00 e das 10h00 às 11h00
Para se inscrever na aula experimental: tatamitodojo@gmail.com ou whatsapp 98290 6651

AIKIDO CORPO-KI FAMíLIA
A oportunidade de usufruir de uma hora de atividades tão profundas e ao mesmo tempo divertidas em família pode acontecer na sua casa caso haja  espaço suficiente para montar um pequeno tatame. Contacte-me para saber mais
 

9.2.15

"Diálogos" estão de volta!

O que:
Os tradicionais "Diálogos" voltaram : um encontro individual no qual o participante traz sua produção (joias, imagens, desenhos, etc) para ser discutida. Seu processo  e "motores criativos" são abordados e direcionados. A partir de um "Diálogos" é também possível desenvolver um projeto criativo específico.  O agendamento de encontros de 1 hora de duração  podem ser reservados e agendados separadamente a medida que os trabalhos vão sendo feitos e novas questões afloram.



Quem: 
Mirla Fernandes completa 20 anos do início de carreira na joalheria contemporânea na qual teve oportunidade de experimentar tanto o lado artesanal quanto o industrial do design e posteriormente migrar para a arte-joalheria com uma experiência internacional significativa,  retomando agora as consultorias de portfólio que aconteceram dentro do projeto NOVAJOIA(2006-2014).


Agendamento:
via email ou whatsapp: 11 9829066551




Diálogos, 2010


Diálogos/convidada Anne Mondro/ NOVAJOIA, 2010

Diálogos/ Convidada Ela Bauer/NOVAJOIA, 2009

Diálogos/ Convidada Cristina Filipe/NOVAJOIA, 2010

24.12.14

Voar como relâmpago

Tanto se fala, tanto se define, mas nada como  ir à fonte e checar o que o criador do Aikido dizia sobre o mesmo.

Muito além de discussões sobre a técnica e forma - verdadeira fixação de muitos praticantes -  o texto de Ueshiba se concentra no cerne da questão: a postura filosófica por trás de tudo - com grande ênfase para o caráter espiritual desta arte. Seguem extratos do livro de Morihei Ueshiba, "Ensinamentos Secretos do Aikido" que contém ensaios que sempre inspiram na busca do nosso melhor:
" O Aikido apareceu para ajudar a curar e purificar este mundo depois da II Guerra Mundial. Nessa época havia muita luta e conflitos, mas agora antevemos uma era na qual o Japão se torna um reino de paz. Lutas e guerras irão destruir nosso mundo - em vez disso, devemos gerar o calor e a luz nascidos do amor. O Aikido serve para implementar isso. Se não existir amor tudo irá desaparecer . Os seres humanos são criados à imagem divina.

(...) Antigamente, o budo envolvia treinamento em formas físicas, mas agora treinar em formas espirituais é mais importante. Se lhe faltar uma mente focada no amor, você nunca conseguirá executar nenhuma grande técnica. (...) O budo é baseado no principio da não resistência, o princípio do mundo espiritural - isso é nenpi kannonriki. O segredo do bu é que ele não tem formas. O coração deve ser livre, e o ki deve ser completamente carregado.
Tudo isso me foi passado pela divindade Sarutahiko em 16 de dezembro de 1942, entre 2 e 3 horas da manhã. Todos os deuses do Japão se reuniram e trouxeram o aiki para a vida trazendo o espírito universal e a esgrima sho chiku bai. A espada de dois gumes do céu e da terra foi manifestada: essa espada simboliza o movimento espiritual que trabalha para purgar o mundo da vileza e da corrupção. Para obter isso, primeiro uma guerra terrível teve de terminar. Fui encarregado de uma tarefa tremenda; e os deuses me instruíram para construir um aiki jinja de 36 tatames em Iwama. Então as bombas caíram em Hiroshima e Nagasaki, e o imperador declarou o fim da guerra. (...) Assim, encarnei a divindade Izumome no mikoto (o espírito das reformas e da renovação).
(...) Todos os deuses trabalham juntos o aiki. Eu sou simplesmente quem indica o caminho. Não ensino nada. Simplesmente ouço os deuses. Use o espírito para ativar a matéria. Se ficar capturado pela forma, você nunca será capaz de voar como o relâmpago e gerar faíscas."

12.12.14

Homenagem a Manoel de Barros

Estava casualmente folheando um livro de Manoel de Barros e minha filha me perguntou quando ele havia nascido. O Google que me disse: 1916. E ainda me contou que ele se foi há apenas quase um mês.

"Repetir, repetir - até ficar diferente.
Repetir é um dom de estilo"


Repetir os movimentos e descobrir, nas suas diferenças, sua profundidade. Isso é também a prática do Aikido Corpo-Ki. Cada corpo que se apresenta como uke e nos permite dar um passo adiante no autoconhecimento, deflagra essa diferença -  que é do outro e nossa. É dessa relação, que se estabelece no contato, e que advém a pesquisa que nunca se encerra e, por isso mesmo, é tão instigante.

Manoel de Barros, poeta atento à sensibilidade dos sentidos mesclados :

"No começo era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira.
E pois,
Em poesia que é voz de poeta, que é voz de fazer
nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio."

8.12.14

Os anos 70

O primeiro seminário internacional de Aikido que fui, aqui em São Paulo, no SESC Pompéia, foi com Yamada Sensei, responsável pelo grupo New York Aikikai.

Talvez por isso tenha me empenhado em adquirir seu livro, Ultimate Aikido. Embora o livro seja de 1981, as fotos evocam uma inegável atmosfera dos anos 70, que hoje em dia, confere ao livro um charme todo especial.

Iniciando um Nikkyo

Essa imagem é por demais preciosa na medida em que enfatiza quais os dedos devem ser usados em um Kotegaeshi




As costeletas e blackpowers vintage certamente chamam a atenção, mas são as explicações dos princípios básicos - tão fundamentais - e as excelentes fotos que exalam a energia dos movimentos, como nessas sequências abaixo, que fazem-no um excelente material de consulta ao aikidoca:


Os bons tempos de película aqui mostram um Iriminage
Como nem só de imagens se faz um livro, termino pois, com uma inspiradora citação de Yamada Sensei ao final do livro:

"It is my sincere hope that through the principles of Aikido, which are the concepts of nonfighting and unity of movement, all people will be able to learn to live in harmony with each other and the world".



1.12.14

Do-in e o Aikido


Quando iniciamos um treino de Aikido Corpo-Ki, a primeira coisa que fazemos é a preparação do corpo com uma série de exercícios, também chamadas de Taissô.

Sentados no tatame, começamos pelos pés: "com uma mão segurando o tornozelo, rodar várias vezes o pé com a outra mão num movimento lento e ritmado. Da mesma forma, segurar o pé e rodar cada dedo, flexionando-os para frente e para trás, para depois massagear, torcer e apertar cada dedo. Com o calcanhar na palma da mão, penetrar profundamente os quatro dedos da mão (...) e exercer pressão moderada em todos os pontos. (...) Terminar com pequenos tapas nas solas dos pés para um estímulo geral".

O trecho abaixo, que descreve tão bem o taissô praticado nos treinos não foi extraido de um livro de Aikido, mas sim de um livro de Do-In, arte da cura que se baseia no conceito chinês de que o corpo humano não apenas tem energia, mas ele é energia manifestada na matéria - o ki.

Mais um trecho interessante:
 "Apenas um ponto chinês - o R1, ponto inicial do Meridiano dos Rins - encontra-se na sola dos pés. No entanto, a massagem nesta região produz estímulos em quase todas as partes do corpo, já que existem 72.000 terminações nervosas nos pés. Estas zonas de reflexo funcionam como "fios-terra", colocando os órgãos diretamente em contato com a energia do solo e fazendo escoar os resíduos e toxinas que bloqueiam a força vital.
Assim como acontece com os pontos chineses, essas zonas de reflexo ficam especialmente sensíveis ou doem espontaneamente quando os respectivos órgãos estão desequilibrados. As técnicas de tonificação e sedação são as mesmas utilizadas nos pontos dos Meridianos: para tonificar é indicado percurtir leve, rápida e repetidamente com a ponta dos dedos; para sedar pressiona-se profunda, lenta e continuamente com o polegar."